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Regina Guimarães e Catarina Lacerda
Bios
Regina Guimarães
Nasceu na cidade do Porto em 1957. A par dos seus poemas, publicados em raras edições de natureza pouco mais do que confidencial, tem desenvolvido trabalho na áreas do Teatro, da Tradução, da Canção, da Dramaturgia, da Educação pela Arte e do Vídeo. Foi docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e na ESMAE. Foi cofundadora e diretora da revista de cinema A Grande Ilusão. É presidente da Associação Os Filhos de Lumière. Integra o coletivo que, a par de outras atividades reflexão e criação, publica o jornal PREC. Com Ana Deus, fundou a banda Três Tristes Tigres e realizou inúmeras experiências em torno da palavra dita e cantada. Tem orientado oficinas de escrita e de iniciação ao cinema em variados contextos. Vive e trabalha com Saguenail desde 1975. Hélastre é o signo da sua obra comum
Catarina Lacerda
Nasceu no Porto, em 1981. Licenciada com distinção pelo prémio Eng.º António de Almeida em Estudos Teatrais pela Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo – ESMAE em 2003. Cofundadora do Teatro do Frio onde assume, desde 2005, funções de coordenação de produção, codireção artística e intérprete. Entre 2008 e 2009, dirige os espetáculos 5 solos portáteis, Retalhos um projeto financiado pela DGArtes/MC, e Retalhos a Retalho. Coprotagonista dos espetáculos Ego, de Mick Gordon e Paul Brooks, encenação de João Pedro Vaz, TNDM II em 2009 e Olá e Adeusinho, de Athol Fugard, encenação de Beatriz Batarda, coprodução Teatro da Cornucópia/ Culturproject em 2010. Em 2008, recebe o prémio Best Acting no Cyprus Internacional ShortFilmFestival pela curta-metragem Deus não quis de António Ferreira em 2007. Docente desde 2006 da cadeira de Movimento na ESMAE e assistente de encenação a Rogério de Carvalho e Paulo Lages, em Fedra em 2006 e India Song em 2008 no âmbito da cadeira de Produção.
Folha de Sala
A língua é um bicho vermelho que mora dentro da boca.
A língua é também um bicho de sete, setenta e setecentas mil cabeças que, não cabendo na boca, nos leva para fora de nós.
Mas a língua consegue habitar todas as partes do nosso corpo, da cabeça aos pés. Com palavras pensamos. Com frases corremos. Com pontuações respiramos. De falas mansas ou bravas, doces ou amargas nos alimentamos e, simultaneamente, damos de comer à língua.
Por a língua ser uma fera difícil de domar, às vezes, temos medo de cuidar dela. Ou, melhor dizendo, não deixamos que ela nos habite e se ocupe de nós. Não convém deixar morrer a língua de fome, até porque, mesmo às portas da agonia, ela pode virar leoa enlouquecida e fazer de nós gato-sapato.
Quando cuidamos da língua de dentro e da língua de fora, tiramos a fera da jaula e abrimos caminhos sem fim. Ora, curiosamente, ao contrário do que acontece com os outros seres vivos, a língua tem prazer em ser comida, renasce e torna-se mais forte se for saboreada.
Este é um texto de comer servido a uma mesa onde todos somos reis e rainhas da realidade.
Regina Guimarães
A língua além de ser o que temos dentro da boca, que é um órgão do corpo humano e que nos ajuda a comer e a falar, é também o nome dado ao português ou língua portuguesa. Esta língua portuguesa, que é a que falamos, tem muitas particularidades.
Por exemplo, já reparaste que há muitas palavras que se escrevem e pronunciam do mesmo modo, mas têm significados diferentes?
São palavras homónimas.
Por exemplo:
Pia (substantivo) — Pia (forma do verbo piar)
> A pia está cheia de água.
> O pintainho pia.
Papa (substantivo) — Papa (forma do verbo papar)
> Gosto de comer papa de banana.
> Fui visitar o Papa.
> Vamos lá papar!
Já brincaste com estas palavras?
Vê se consegues dizer depressa e muitas vezes seguidas:
O pinto pia,
A pia pinga.
Quanto mais o pinto pia,
Mais a pia pinga.
Então agora:
Pinga a pia apara o prato,
Pia o pinto e mia o gato.
Agora este mais depressa ainda:
Um prato de papa
Dentro do papo do papa.
À velocidade da luz:
“Percebeste ou fingiste que percebeste
Para que os outros percebessem que
Tinhas percelambido?”
Excerto retirado do livro Comer a Língua, de Regina Guimarães
Há línguas que são mesmo de se comer por isso deixamos-te uma receita especial.
Experimenta fazer línguas de gato!
Ingredientes:
10 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de manteiga
1 chávena de chá cheia de farinha de trigo
3 claras de ovo batidas em castelo
Algumas gotinhas de essência de baunilha
1 pitada de sal
1 pitada de fermento em pó
Modo de Preparação:
Prepara previamente um tabuleiro forrando-o com papel vegetal ligeiramente untado com manteiga. O forno deve ser pré-aquecido à temperatura de 150ºC, durante aproximadamente 15 minutos que é o tempo que necessitas para ir preparando a receita.
Derrete a manteiga, por exemplo no micro-ondas, a seguir mistura-a com o açúcar e a essência de baunilha. Tens de misturar tudo até ficar uma massa uniforme. A seguir, adiciona as claras batidas em castelo e, por fim, a farinha.
Para fazeres a forma dos biscoitos, coloca a massa num saco de confeitar com um bico reto ou experimenta usar um saco de plástico limpo com um furo num dos ângulos para depois poderes apertar a massa que sairá por esse furo, criando a forma de uma língua de gato. Lembra-te que tens de deixar um espaço de aproximadamente 5 cm entre cada língua de gato porque elas vão crescer com o calor do forno.
Coze durante 10 a 15 minutos. Retira-as do forno quando estiverem a ficar douradinhas. Deixa-as arrefecer no tabuleiro. Depois de frias, podes retirá-las sem te queimar. Estão prontas para comer!
Cuidado não mordas a língua!
Sinopse
Com texto original de Regina Guimarães, este espetáculo mostra a complexidade da língua, revelando a sua abertura a múltiplas influências culturais e a sua capacidade plástica de mutação. Através de trava-línguas e outros jogos semânticos, o espetáculo demonstra uma língua pensante, cantante, uma língua viva. Uma língua para ouvir, dizer, cheirar e comer. Sentir e fazer sentir. Crescer e querer crescer.
“Língua é pano para mangas:
Quem come chora por mais!
Por palavra diferimos
De outras vozes animais.
E pelo gosto da fala
É que a gente se faz gente,
Amando perdidamente
Tudo quanto não nos cala.”
Regina Guimarães