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Fall Victor Hugo Pontes Informações sobre o Evento
28 → 30 Abr 2015
Datas e Horários
Terça a Quinta 21h30
Preço
6€ a 12€
Menores 30 anos: 5€
Duração
70 min
Classificação
M/6
Local
Sala Principal
Dança

Fall
Victor Hugo Pontes

Folha de Sala

Folha de Sala

Caminante, no hay camino. El camino se hace al andar. Passaram-se uns quinze anos desde que em Kalabaka, cidade grega, ouvi de um amigo espanhol este famoso provérbio. Era uma tórrida tarde de Julho, cheirava a erva seca, não se via ninguém. E eu não sabia se queria seguir para Atenas. Aquilo a que chamamos sabedoria popular serve muitas vezes para justificarmos escolhas de vida e opiniões sobre o mundo. O meu amigo espanhol ficou, eu continuei. Não sou já capaz, a esta distância, de descrever todos os passos que me levaram a uma pequena cidade da Tessália, no interior da Grécia, de onde tomei um rudimentar comboio até à capital. Também já não sou capaz, ao fim de tantos anos a trabalhar com o Victor Hugo Pontes, de recuperar todos os avanços e recuos das nossas conversas sobre cada uma das suas criações. Mas a memória não falha quando recupero a minha infantil perplexidade em cada estreia, quando o longo percurso entre a ideia inicial e o objeto ‘acabado’ passa a ser memória apenas, e a admiração exaltada é a melhor das emoções.

Fall recupera uma ideia que ocupa há muito a cabeça do Victor Hugo e que se relaciona com o seu particular entendimento do mundo: a ação física decorre de um impulso emocional, tal como um impulso emocional propulsiona uma ação física. Esta relação de causa-efeito não representa, em si, um modo de ver, mas antes um modo de fazer. A queda, em princípio, não se mimetiza, acontece. No caso de Fall, a queda é tudo o que há – nem acaso nem deliberação. Esta é a leitura despojada: as razões que nos fazem cair e voltar a erguer (ou não), as consequências de cada movimento, o resultado das imagens e dos sons constituem o percurso que cada um fará. Esse tal caminho que se descobre a caminhar. Ou, no caso de Fall, também a cair.

Madalena Alfaia

(texto escrito na antiga ortografia)

Quando um corpo cai, isso é visível, incontestável. Podemos discutir as forças que o impelem à queda, mas não podemos duvidar do movimento descendente. A outra queda pode ser transparente, exigir um juízo moral, perder-se numa falha de interpretação. Em Fall será mais imediato observar a queda física do que a outra queda – uma é concreta e terrena, a outra é metafórica e insubstancial –, embora não se tenha traçado uma linha de fronteira. Desde logo, porque todos “caímos de amor” tal como “caímos no chão”, ou “caímos por terra” no fim da vida da mesma maneira que as folhas das árvores “caem por terra” no Outono, que em inglês se diz “Fall”.

Do que se fala neste espetáculo é do ato, deliberado ou não, de cair. Parte-se de um movimento, não de um conceito. Todos caímos, seja porque tropeçámos, porque nos empurraram, porque perdemos as forças ou a consciência, porque nos apaixonámos, porque caímos em tentação, porque praticámos o mal, porque morremos. Fall vive aqui, nesta intersecção difusa entre o que nos faz cair e nos condena, e o que nos faz cair mas nos redime.

Victor Hugo Pontes

 

Em 2015, celebramos o Dia Mundial da Dança com Victor Hugo Pontes e as suas duas novas criações para públicos diferentes no mesmo espaço cénico: Cair, no âmbito da programação para crianças e jovens, e Fall para o público em geral e para adolescentes. Aqui fica uma breve entrevista a propósito de ambas as criações.

Quando decidiste que querias ser coreógrafo?

Na verdade, eu não decidi nada – as circunstâncias decidiram por mim. Quando era miúdo, dançava num rancho folclórico, porque a minha família não tinha capacidade financeira para me inscrever numa escola de dança. Além disso, naquele tempo e numa cidade de província, como é o caso de Guimarães, não era lá muito bem visto um rapaz praticar dança clássica mais conhecida por ballet. No rancho folclórico pelo menos dançava, já era qualquer coisa e isso deixava-me feliz. Muito mais tarde, depois de ter estudado Artes Plásticas (Pintura) na faculdade de Belas Artes do Porto e Teatro numa escola profissional na mesma cidade – o Balleteatro, percebi que a dança era a linguagem artística onde eu conseguia dar forma a todo o conhecimento que tinha adquirido ao longo do tempo através da minha formação. E foi assim que comecei a coreografar – que para mim é desenhar no espaço com os corpos dos bailarinos e os seus movimentos. Só que é um desenho que se está sempre a construir e a apagar e só fica na memória de quem o vê.

Porque é que o teu espetáculo se chama Cair?

Antes de criar o espetáculo Cair, construí outro espetáculo chamado Fall, que é como se diz ‘cair’ em inglês. Mas a palavra “Fall” em inglês também tem outros significados, como por exemplo “outono”, que curiosamente é a altura do ano em que as folhas caem das árvores. A palavra em inglês é também usada juntamente com outras, e cria expressões como ‘fall in love’, que significa ‘cair de amores’, ‘apaixonar-se’. No espetáculo Fall, explorei os diferentes significados dessa mesma palavra. No espetáculo Cair, procurei criar um lugar sem gravidade, um lugar onde não se cai e onde nada é grave.

Onde gostas mais de cair?

Na cama, quando estou cheio de sono.

Achas que cair também pode ser dançar?

Sem dúvida. O movimento da queda faz parte do vocabulário dos movimentos de dança, da mesma maneira que, por exemplo, os saltos e os giros.

E dançar a cair?

Gosto mais de dançar até cair.

Cair na Lua, onde não existe gravidade, também é cair ou é mais deixarmo-nos poisar no chão com o corpo todo?

Na Lua não existe gravidade, que é a força responsável pelo facto de todas as coisas, inclusivamente nós, serem atraídas para o centro da Terra. Se a força da gravidade não existisse, seria impossível viver no nosso planeta, porque todos os objetos e seres vivos estariam soltos no espaço. Na Lua, temos de fazer um esforço para conseguir tocar no chão, e por isso nunca há um embate violento dos corpos com o chão. Somos nós quem tem de forçar esse contacto.

Tens algum truque para cair sem magoar?

Nenhum. Estou sempre a cair e estou sempre a magoar-me. Mas agora é mais difícil levantar-me.

Tens algum truque para nos ensinares a fazer o que os bailarinos fazem no palco?

O que os bailarinos fazem no palco resulta de muito estudo e treino, justamente para que não se magoem a fazer os movimentos. Para se alcançar um grande nível de controlo em relação aos movimentos e ao espaço que cada bailarino tem à volta e pode ocupar é preciso estudar e trabalhar muito. Mas o mais importante é andar com os olhos bem abertos, para não tropeçarmos nem deixarmos que alguém nos empurre. Mais importante ainda é ter as mãos sempre prontas para nos ajudarem a levantar de cada vez que caímos.

 

 

Como é que surge esta vontade da “queda” que origina o Fall?

O que me interessa na palavra ‘fall’ são os seus múltiplos significados. A ideia de queda física, a ideia de Outono (e de fim de ciclo), a ideia de cair de amores, até mesmo a ideia de queda em sentido bíblico. Claro que, ao usar esta palavra como título para um espetáculo de dança, a associação mais evidente é a de ‘queda’ tout court, desde logo porque subsume todos os outros significados. Seja como for, já não me recordo do que surgiu primeiro, se foi a vontade da queda ou se foi durante uma queda que encontrei a palavra ‘fall’. Mas nesse momento falar sobre queda foi essencial.

Fall é o teu último trabalho coreográfico. Depois de Fuga Sem Fim, A Ballet Story, ZOO há algo que tenhas experimentado neste que ainda não o tivesses feito antes e que sintas que pode contribuir para um nova fase do teu trabalho?

Sempre que começo um novo projeto tento ir para um lugar que ainda não conheça e tento encontrar a linguagem certa nesse lugar. Diria que Fall é um trabalho diferente dos anteriores, sim, mas ainda não tenho distância suficiente para avaliar isso com clareza. É sempre mais fácil para os espectadores reconhecerem essas diferenças.

Em Fall trabalhas quatro ideias fundamentais: quedar-se de amores, a queda bíblica, no outono, a aproximação de um fim de ciclo na natureza, e o movimento da queda física. Como foi o processo de sintetizar um conceito e uma ação tão vastos em apenas  4 pontos?

Não existe um esforço de síntese. Pelo contrário, existe um esforço de dispersão. Seria muito ingénuo e pretensioso da minha parte propor aquela que poderia ser a história do homem em cerca de uma hora, num só espetáculo. As quatro ideias que escolhi trabalhar em Fall poderiam multiplicar-se em muitas mais. Mas foi essencial delimitar o objeto de reflexão para que fosse possível fechar possibilidades e construir um espetáculo com solidez dramatúrgica. Não me interessa mostrar uma narrativa linear, e muito menos uma arrumação de conceitos. O que é interessante nos conceitos é a complexidade compactada. Gosto de pensar que Fall é isso. Espero que seja.

A ideia da queda também pressupõe a ideia de nos pormos de pé e talvez por isso caímos por estarmos de pé numa espécie de ciclo, estar de pé para cair. É uma coreografia de equilíbrio? Ou de persistência?

Se tiver de ser alguma coisa, diria que é uma coreografia de perseverança. Fall explora dois tipos de queda: a queda física, visível, e uma queda interior, invisível a olho nu. Por isso é mais uma metáfora do homem e do seu percurso de vida do que propriamente uma alusão ao mundo que nos rodeia. Claro que, se não nos levantarmos, nunca voltamos a cair. E isto vale para o que está à vista e para o que está escondido. Daí a ideia de perseverança. E daí também a pertinência, creio, deste espetáculo. Cairmos e voltarmos a erguer-nos é uma espécie de coreografia estrutural da vida.

Podemos dizer sobre o teu trabalho que tens queda para a queda? Ou seja que gostas de trabalhar esse instante que é o movimento inesperado de cair?

Podem dizer do meu trabalho o que quiserem. Falando a sério: gosto de trabalhar a partir de movimentos que são ações em si mesmos. Talvez isto tenha que ver com a minha formação em teatro – para mim, o movimento nasce de uma ação. E para que haja ação tem de existir conflito. É uma premissa narrativa e dramatúrgica básica. Em Fall, o mais difícil foi criar conflitos sem que os mecanismos fossem ilustrativos ou descritivos. Pensar no que está antes do momento da queda, no que precede o instante em que caímos. Por isso é que a cenografia cria uma barreira visual no horizonte: não sabemos o que está antes nem o que acontece depois nem o que está para além da nossa linha de visão. Essas são as peças do puzzle que o público tem de encaixar.

É difícil coreografar uma ação sem ser redundante?

Uma ação executa-se. A forma como se executa pode ser coreografada.

Quais são as grandes diferenças entre Fall e Cair?

Fall está nos antípodas de Cair. Em Fall estamos sempre em queda, no Cair procura-se um lugar onde não se cai e onde não existe gravidade.

Em Cair tentaste apresentar as mesmas ideias que te inspiraram para a criação de Fall?

Seria ingénuo e pretensioso transferir para um espetáculo infantojuvenil a complexidade de Fall. O ponto de partida, no entanto, foi o mesmo, claro. Mas, tendo em conta os diferentes públicos, a glosa de Cair remete para um onirismo imaterial que se calhar não existe em Fall. As quedas de Fall são sempre muito duras, e é um espetáculo mais denso. Em Cair procurei quase de forma ingénua um lugar onde não se cai, onde tudo é perfeito, onde nada é grave. Quando somos crianças estamos sempre a cair – faz parte da aprendizagem para conseguirmos caminhar, correr, pedalar, dançar. Destas quedas, esquecemo-nos rapidamente, e depressa nos pomos de pé. Quando somos adultos, continuamos a cair – caímos menos vezes, mas custa muito mais levantarmo-nos. Esta diferença elementar é fundamental para se perceber as diferenças entre Fall e Cair.

Entrevista por Susana Menezes, abril 2015

28 → 30 Abr 2015
Datas e Horários
Terça a Quinta 21h30
Preço
6€ a 12€
Menores 30 anos: 5€
Duração
70 min
Classificação
M/6
Local
Sala Principal

Sinopse

Em Fall, é mais imediato observar a queda física do que a queda metafórica e insubstancial, embora não se tenha traçado uma linha de fronteira, porque “caímos de amor” tal como “caímos no chão”, ou “caímos por terra” no fim da vida da mesma maneira que as folhas das árvores “caem por terra” no outono, que em inglês se diz fall. Do que se fala neste espetáculo é do ato, deliberado ou não, de cair. É a partir deste movimento que Victor Hugo Pontes desenha um espetáculo que encontra múltiplas direções. Todos caímos, seja porque tropeçámos, porque nos empurraram, porque perdemos as forças ou a consciência, porque nos apaixonámos, porque caímos em tentação, porque praticámos o mal, porque morremos.

Depois de uma estreia de sucesso no Teatro Municipal Rivoli no Porto, Victor Hugo Pontes apresenta Fall no Teatro Maria Matos, com uma sessão à tarde destinada especialmente às escolas secundárias. Assinalando as celebrações do Dia Internacional da Dança, a par de Fall, apresentamos também Cair, a mais recente criação do autor para o público infantil, desenhada para o mesmo espaço cénico.

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Material Gráfico Cartaz Victor Hugo Pontes 27 Abr 2015

Ficha Artística

direção e coreografia:
Victor Hugo Pontes

cenografia:
F. Ribeiro com fotografia de João Paulo Serafim

desenho de luz e direção técnica:
Wilma Moutinho

música original:
Rui Lima e Sérgio Martins

apoio dramatúrgico:
Madalena Alfaia

interpretação:
Anaísa Lopes, Ángela Díaz Quintela, António Torres,
Daniela Cruz, Diogo Almeida, Marco da Silva Ferreira e Valter Fernandes.

bailarinos estagiários:
José Meireles e Maria Melo Falcão

direção de produção:
Joana Ventura

produção executiva:
Jesse James

produção executiva em residência artística:
Ana Rita Pontes e Jesse James

coprodução:
Nome Próprio, Câmara Municipal do Porto, Centro Cultural
Vila Flor, Maria Matos Teatro Municipal e Theatro Circo

apoio residência artística:
Circolando e O Espaço do Tempo

apoio:
Casa dos Reclamos

fotografia:
José Caldeira

projeto financiado pelo Governo de Portugal — Secretário de Estado da Cultura/Direção-Geral das Artes

coprodução no âmbito da rede 5 sentidos

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E-mail: geral@egeac.pt

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