Márcia Lança e Nuno Lucas
Folha de Sala
Esta é aquela história que não queria começar porque começava assim: “Era uma vez uma história onde não havia nada. Nem início havia”. Bem (e isto sou eu a pensar aqui para mim), acho que ler este início é mais ou menos como andar em casa, às apalpadelas, no escuro, sabes? Mas aqui não é no escuro nem em casa, é numa história. Cá para mim tudo indica que é uma história um pouco desorientada, sem saber bem para onde ir. Por isso fico a olhá-la cheio de esperança que dela surja uma voz misteriosa que diga:
“Era uma vez um cavalo branco…”
ou
“Num castelo mágico…”
ou
“Havia um rei…”
Talvez seja uma história que adoeceu, mirrou, e todo o seu interior se evaporou, assim, puf, por pura magia. Neste momento nem ar podemos garantir que tenha. Sem ar é difícil algo sobreviver numa história, certo? Então, à falta de melhor, voltou a tentar começar e só lhe saiu isto: “Era uma vez um grande, um enorme vazio, que estava com falta de ar”. Que sufoco! Esta história queria mesmo muito começar, estava visto, embora não soubesse para que lado.
Vendo-a naquele estado, pensei meter o dedo na história. Talvez um dedo pudesse indicar-lhe um caminho para começar. E como tinha aqui um dedo à mão, mergulhei-o lá, e ele, puf, entrou na história. O dedo estava já do lado de lá, todo atrapalhado, sem saber para onde ir. E para disfarçar, pôs-se naquela posição de dedo pensativo. Para rechear uma história é preciso transportar para lá muita coisa. Por exemplo, seria divertido que tivesse uma bicicleta, uma estrada para a bicicleta, uma casa para guardar a bicicleta, um sol para poder ir de dia andar de bicicleta, crianças para brincar às corridas de bicicleta, e pais para fazerem um lanche guloso para depois da corrida, e… Ufa! É muito exigente, esta história por enquanto vazia. Então este meu dedo deu por si a puxar, a puxar, a puxar… Puxou tanto pela cabeça, que a cabeça, de tanto puxarem por ela, acabou por entrar também nesta história. E com a cabeça, de uma assentada, vieram os braços, o tronco, os ombros, as pernas, os pés, e os nove dedos das mãos (um já tinha entrado, foi o primeiro). Podia, finalmente, puxar pela cabeça, agora com o corpo todo, para o bem da história vazia. E foi o que fiz: puxei com tanta força, que, sem mais, fez-se luz (dentro da cabeça). E os dez dedos, atarefados, desataram a desenhar no vazio da história, muitas coisas. Uma, duas, três, quatro, dezenas, centenas de coisas parecidas: para aí duzentas caixas de cartão iguais. Pus-me a imaginar, cheio de ânimo e orgulho de mim mesmo, a quantidade de tralha e de coisas diferentes que estariam no interior de duzentas caixas iguais. Ah, que beleza! Sou um génio: numa história vazia faltam-lhe tantas bicicletas, estradas, crianças, animais, feiticeiros e monstros, que, para me facilitar a vida, mandei vir a história nova em caixas. Uma história empacotada. Que grandeza! Vai ser uma loucura, quando a história vazia sair da caixa (ou da casca?). Imparável! Então fui, com unhas e dentes, cheio de ganas, abrir esta história. Começo por aquela, pela caixa maior, pensei. Mas enquanto me dirigia para ela, os bichos-carpinteiros invisíveis meteram-se a subir-me pelas pernas. E mal chegaram aos dedos que abriam a caixa maior, fiquei com medo. Os dez dedos afastavam as abas da caixa de cartão com cautela – do meu rosto caíam grossas gotas de suor. Sabem, gosto de tudo o que pode estar dentro de uma caixa, menos daquilo que não gostaria que lá estivesse. Uma cobra venenosa esverdeada, não queria. Horripilante! E quantas e quantas vezes se torna real precisamente aquilo que não queremos muito que aconteça? Afastava, como dizia, as abas da caixa maior. Depois ganhei coragem e espreitei… Não posso acreditar, disse. Não posso, não posso, não posso. Terrível, assombroso! Agarrei com firmeza a caixa, levantei-a à altura dos olhos, virei-a ao contrário, e sacudi-a. De lá saía aquilo que mais temia (para além da cobra verde venenosa). No chão não parava de cair uma quantidade enorme de nada. Cobra venenosa, nem vê-la! E quanto ao resto do mundo que podia entrar numa história? Nem vê-lo! Enraivecido com esta história que se esforçava tanto por não existir, pus-me a dar-lhe pequenos pontapés. E elas, as caixas, mesmo numa história sem nada, mexeram-se. Suspeitei, primeiro. Depois convenci-me. Ali estavam as provas. Emproado, condescendi mais uns quantos pontapés, agora com força de futebolista. Aos poucos, as caixas vazias da história vazia foram-se empilhando. Depois recuei uns passos, para observar como estava a história. Olhei-a com insistência. E de tanto insistir, no canto inferior esquerdo desta história vazia, vi uma bicicleta feita de caixas vazias. E ao lado da bicicleta, uma estrada. E nessa estrada, uma casa. Estaria sol?
Rui de Almeida Paiva
Pássaro para picotar:
Este pássaro, que está escondido na história, é para picotares. Pede um alfinete aos teus pais e um pedaço de esponja ou cartão para pores por baixo desta folha. Agora faz furinhos muito seguidos de modo a contornares o pássaro. No fim terás o pássaro totalmente destacado do fundo. Agora podes colá-lo a uma ponta de um fio e pendura-lo no teu quarto.
Sinopse
Márcia e Nuno são exploradores preparados para ir à descoberta. Estão sempre disponíveis para uma próxima aventura, atentos ao inesperado e abertos ao desconhecido. Ao virar da esquina deparam-se com um lugar cheio de caixas. Intrigados, questionam-se. O que fazem ali todas aquelas caixas? O que contém cada uma delas? Cada vez que abrem uma caixa cria-se um mundo de possibilidades. Mas… por vezes a curiosidade mete-os em apuros! É preciso resolver esses obstáculos para poder continuar.
Certamente já te aconteceu estares tão curioso para descobrir um segredo que te atreves a ultrapassar um limite. Quantas histórias já viveste em que movido pela curiosidade abriste portas, cofres, armários e te deparaste com uma realidade inesperada? Cada caixa uma surpresa, cada surpresa uma emoção, cada emoção uma ação, cada ação uma imagem, cada imagem uma história. Um perpétuo movimento de descoberta e de questionamento. Até onde nos levará a nossa curiosidade?