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Mima-Fatáxa João Sousa Cardoso Informações sobre o Evento
06 Fev 2015
Datas e Horários
Sexta 15h30 (Escolas)
Duração
1h40
Classificação
M/12
Local
Palco da Sala Principal
Informação Adicional

sessão 6 fevereiro 15h30 (escolas) 3€ preço único aluno em contexto escolar professor acompanhante não paga
reservas sessão escolas pagamento parcial obrigatório nas 48h após a reserva

Crianças & Jovens · Escolas coprodução mm

Mima-Fatáxa
João Sousa Cardoso

Bios

Bios

João Sousa Cardoso (1977)

Doutorado em Ciências Sociais, pela Universidade Paris Descartes (Sorbonne).

Criou os espetáculos Raso como o Chão (2012) no Teatro Nacional São João, no Porto, A Carbonária (2008), com estreia no Teatro Municipal de Bragança, e O Bobo (2006), com apresentações nas Universidades de Paris 3, Paris 4, Paris 8 e Paris 10 e estreia nacional no Teatro Taborda, em Lisboa. Autor dos filmes Cinema Mudo (2006) e 2+2 (2008), estreado no Jeu de Paume, em Paris. Realizou os filmes Baal a partir de Bertolt Brecht (2013), A Ronda da Noite a partir de Heiner Müller (2013) e A Santa Joana dos Matadouros a partir de Bertolt Brecht (2014). Artista em residência na Fondazione Pistoletto (Itália), em 2002, e em Expédition, a convite dos Laboratoires d’Aubervilliers, em 2007 e 2008. Integrou a exposição Às Artes, Cidadãos!, no Museu de Serralves, em 2010. Desenvolve, durante o ano de 2015, a criação TEATRO EXPANDIDO! no Teatro Municipal do Porto.

 

Ana Deus (1963)

Canta desde 1987 em bandas pop-rock. Em 1993, inicia o grupo Três Tristes Tigres, editando os discos Partes Sensíveis (1993), Guia Espiritual (1996), Comum (1998) e Visita de Estudo (2001). Em 1998 criou com Regina Guimarães e Alexandre Soares o espetáculo Ferida Consentida, apresentado no CCB (Lisboa) e no Rivoli Teatro Municipal (Porto). Em 2000 participa na Bienal de Roma. Em 2010 inicia com Alexandre Soares o projeto Osso Vaidoso. Em 2011, grava Degrau Cuidado (Mia Soave) e Animal do Osso Vaidoso (Optimusdiscos). Criou e interpretou os espetáculos A Carbonária (2008) e Raso como o Chão (2012), com João Sousa Cardoso. Em 2013, Osso Vaidoso participa na Virada Cultural, em S. Paulo, e no SESC do Rio de Janeiro (Brasil). Em 2014, Osso Vaidoso atua em João Pessoa (Brasil). Em 2015, prepara um trabalho do Osso Vaidoso sobre a poesia de Mário Cesariny.

 

Ricardo Bueno (1981)

Licenciado em Teatro — Interpretação pela Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo, no Porto, em 2011. Frequenta o Mestrado de Práticas Artísticas Contemporâneas na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Trabalhou em contexto académico com João Mota, Nuno Cardoso, Fernando Mora Ramos e António Durães. Realizou Estágio de Assistência de Encenação em Medida por Medida, de Shakespeare, com encenação de Nuno Cardoso, em 2011. Como ator, integrou o elenco de Katzelmacher, de Rainer Werner Fassbinder, com encenação de Luís Araújo e Ricardo Braun, no Porto. Protagonizou os filmes Baal e A Ronda da Noite, de João Sousa Cardoso, em 2013. Ator residente de TEATRO EXPANDIDO!, criação de João Sousa Cardoso, no Teatro Municipal do Porto, de janeiro a dezembro de 2015.

Folha de Sala

Folha de Sala

Embora o Almada Negreiros seja uma figura incontornável na cultura portuguesa com atividade em quase todas as áreas criativas, foi sobretudo na literatura e nas artes plásticas que realizou as suas obras mais importantes. Porque sentiste a necessidade de trazer a sua obra para o palco? E porque não pegaste nas suas obras teatrais, que são mais raras e mais desconhecidas?

Como ao Almada Negreiros, também me interessa a tensão das relações entre as disciplinas artísticas. No trabalho que desenvolvo em teatro, permito-me deslocar para a cena textos que não foram escritos para este fim, ensaiando as suas potencialidades e descobrindo-lhes uma renovada vitalidade por meio desta torsão. Assim fiz com O Bobo de Alexandre Herculano, em 2006, ou Porque Morreu Eanes e Raso como o Chão, ambos de Álvaro Lapa, em 2008 e 2012 respetivamente, e continuo agora com os textos do Almada, desviando três poemas para o território da dramatização. O espetáculo assenta em dois textos relativamente secretos — Mima Fatáxa e Os Ingleses Fumam Cachimbo — e um texto muito celebrado — A Cena do Ódio — que quisemos libertar de uma certa patrimonialização. De qualquer modo, não tenho um programa definido e a prova disso é que encenarei Portugal, texto de teatro do Almada, de 1924, no Teatro Municipal do Porto, em dezembro deste ano.

 

A vanguarda artística do pós-Primeira Guerra Mundial representa uma geração que passou da euforia do início do século XX, pelas atrocidades da guerra, à desilusão e ao cinismo em relação aos chamados “valores civilizacionais” europeus. Imagino que, ao pegar nestes textos, quiseste trabalhar alguns paralelos com os dias de hoje…

Absolutamente. O Almada interpela um país que parece perdurar — remediado, medroso, num impasse cultural — e uma Europa que só será inteligente se viver o que no seu interior existe de cigano, de africano, de oriental. O Almada critica duramente nestes textos a vida portuguesa e a subalternidade das suas instituições relativamente ao capital internacional mas também o espírito de acomodação aos valores domésticos dos portugueses. A atualidade da voz do Almada radica no desejo irreprimível e transbordante de uma vida plena e na necessidade de gestos — individuais e coletivos — capazes de reinventarem a linguagem, a relação erótica com o mundo e a vivência do corpo, fabricando novas formas éticas e poéticas. Na Europa anquilosada de hoje, a aspiração do Almada é a nossa aspiração. Com MIMA-FATÁXA, eu, a Ana Deus e o Ricardo Bueno damos corpo à dor, ao humor e à fúria destes textos procurando com eles mobilizar a visão e as vontades — as nossas, as dos participantes no espetáculo e as do público —, num país e numa Europa que perderam a imaginação.

 

Se o espetáculo é pensado para se tornar um destes gestos de rutura e reinvenção, pelos quais o Almada clamava, qual é o papel dos participantes na sua construção e realização? Ao imaginar a participação de um grupo numeroso de não-profissionais, sentiram a necessidade de ir buscar inspiração no mundo real? De romper as paredes do teatro e aumentar o impacto dos textos de Almada Negreiros? De colocar as palavras do Almada na “boca do povo”? Ou simplesmente, de confrontá-las com corpos/vozes não treinados? 

MIMA-FATÁXA é um espetáculo que vive de uma comunidade excecional que se levanta na urgência de uma semana de trabalho. Num tão breve espaço de tempo, todos dão o melhor de si, pelo que sempre sinto — desde a estreia no Teatro Viriato e nas outras cidades onde foi apresentado — que construímos no nosso espetáculo a hipótese de uma comunidade exemplar. Ou seja, um grupo vivo de homens e mulheres onde cada um contribui com a radicalização das suas singularidades. E tudo isso pode ser de uma grande subtileza em cena. Alcançar a imagem justa da presença atenta e do movimento do grupo — que refletem a escuta, o entendimento e a participação dos textos dramatizados — é o mais importante para mim e em cada cidade é uma experiência única que nos coloca problemas específicos. E, tens razão: não apenas imaginamos os textos do Almada encarnados por qualquer português, mas procuramos um teatro brutalista que acolha, sem paternalismos, os corpos plebeus como o Caravaggio procurou na pintura ou o Pasolini no cinema. A vivência destes corpos e as qualidades expressivas que trazem consigo ensinam-nos constantemente sobre a disponibilidade e a inteligência naturais. Como no TEATRO EXPANDIDO! em que, ao longo de um ano, cruzamos no Teatro Municipal do Porto profissionais e amadores na perspetiva de um teatro-cidadão, acredito que desta abertura de processos como é o caso em MIMA-FATÁXA, nascerá uma renovação das formas como concebemos hoje as práticas performativas em Portugal.

 

O confronto de profissionais e não-profissionais é interessante e, ao mesmo tempo, questionável. Porque esta conjugação te interesse? Porque não trabalhar simplesmente com amadores, pessoas que fazem teatro, dança ou música por gosto e amor, mas não como profissão? É uma opção meramente prática, de acompanhamento e passagem de conhecimento? Ou o confronto entre corpos/vozes treinados e não-treinados, formados e não-formados, conhecidos e não-conhecidos cria mais-valias?    

No meu trabalho no campo das artes visuais, no cinema ou no teatro são as arestas que me interpelam e entusiasmam! O que pode nascer da fricção, da tensão, do confronto produtivo entre corpos com formação e os corpos não preparados para a cena? Como dialogam uns com os outros e de que modo, numa perspetiva quase antropológica (estudei ciências sociais), trocam saberes?​ Nos ensaios, verifico constantemente que os profissionais têm muito a aprender com os amadores. Ou a reaprender. Urge repensarmos o que pode ser consciência de cena, relativizarmos princípios de trabalho e conceções de acabamento, de boa forma e de espetáculo. No fundo, relacionarmo-nos com outra desenvoltura contra os paradigmas dominantes no teatro contemporâneo ou a expectativa do consumo cultural (que significativamente limita os parâmetros de criação). Não será isto o que se espera de trabalho de experimentação? Esta reunião de atores de diversa natureza coloca ainda o problema do trabalho e do valor — simbólico e objetivo — do trabalho. Por isso, no Teatro Viriato, no Teatro Municipal da Guarda ou no Teatro Virgínia, levantámos o espetáculo contando — entre outros — com pessoas em situação de desemprego. Mais do que encenador e atores ou profissionais e amadores, em MIMA-FATÁXA todos somos trabalhadores, trabalhadores em cena, e, por isso, a forma final é o último ensaio. A procura coletiva ainda… Mano a mano.

 

Decidiste confrontar os textos mordazes do Almada com os testemunhos reais dos participantes sobre o Portugal onde trabalham (ou ficaram excluídos do mundo do trabalho) e vivem. Como sentes o convívio dos dois materiais?

É uma das agudas arestas que procuramos percorrer. Propus-me que os textos do Almada — os referentes históricos e a formulação moderna — coabitassem com relatos de vida dos participantes que ecoam uma memória cultural ou um gesto de insubordinação. Estas histórias sumárias arrastam para a cena uma densidade vivencial legível nos corpos e capaz de atualizar as ideias fundamentais dos textos. MIMA-FATÁXA alimenta, pois, uma tensão entre o texto erudito e a oralidade, mas também entre o canto e a leitura pela Ana Deus e a interpretação dramática pelo ator Ricardo Bueno, assumindo o choque e a descontinuidade, num efeito de colagem. Por último, eu mesmo entro em cena a cada representação e oriento o ensaio diante de um público, acompanhando os atores numa procura conjunta. Fazemos uso, pois, de cinco materiais de natureza diversa neste trabalho de montagem que exige uma fina articulação entre as partes: os textos originais, a leitura e o canto, a interpretação dramática, as histórias de vida e as indicações do encenador. MIMA-FATÁXA é inevitavelmente um espetáculo híbrido que resiste à classificação. E é neste sentido que venho trabalhando com a Ana Deus e o Ricardo Bueno: atravessados pelo texto, devem evitar a construção de dramatis personae e, aproximando-se da fragilidade e do desnudamento, serem — como de resto todos restantes participantes — eles mesmos em cena.

 

O grau zero do teatro para os tempos sobrecarregados em que vivemos…

Sim, procuro um teatro chão. Dos cruzamentos disciplinares de que nasce o meu trabalho, o exercício é invariavelmente o da procura, através de uma economia de meios, da forma justa. Os museus que visitei, todo o cinema que me habita, a conversa que mantenho com os artistas de extraordinário talento com quem crio – como a Ana Deus e o Ricardo Bueno – e que como eu, sentem com naturalidade o desejo constante de se desviarem da previsibilidade dos percursos de uma profissão, exigem que descubra a cada espetáculo, como construir de novo. E fazermos teatro com a brutalidade da primeira vez. Tão conscientes do nosso tempo como da força do arcaico. Talvez seja o mesmo gesto de começar a que apelava o Almada. Ou, ainda nas suas palavras que ecoam em mim, o insulto ao perigo.

06 Fev 2015
Datas e Horários
Sexta 15h30 (Escolas)
Duração
1h40
Classificação
M/12
Local
Palco da Sala Principal
Informação Adicional

sessão 6 fevereiro 15h30 (escolas) 3€ preço único aluno em contexto escolar professor acompanhante não paga
reservas sessão escolas pagamento parcial obrigatório nas 48h após a reserva

Sinopse

Depois de Almada, Um Nome de Guerra/Nós Não Estamos Algures, a nova criação de João Sousa Cardoso representa o seu regresso à obra de Almada Negreiros, dirigindo-se não apenas ao público em geral, mas também a jovens, com uma sessão destinada especialmente às escolas secundárias.

O espetáculo centra-se em três textos do autor — Os Ingleses fumam Cachimbo (1919), MIMA-FATÁXA (1916) e A Cena do Ódio (1915) — interpretados pela cantora Ana Deus e pelo ator Ricardo Bueno, acompanhados por 13 participantes locais de várias idades. MIMA-FATÁXA convoca a radicalidade das formas e das ideias do Modernismo, propondo um confronto com o presente de Portugal e da Europa. Cruzando a conversa e a representação, o teatro e a memória do plateau de cinema, o ensaio e o espetáculo, os profissionais e os amadores, João Sousa Cardoso explora a diluição das disciplinas artísticas. MIMA-FATÁXA reivindica, 100 anos depois da criação da revista Orpheu, o inconformismo que animou Almada Negreiros e que, na aurora deste século, nos encoraja de novo.

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Material Gráfico Cartaz Mima-fatáxa 07 Fev 2015

Ficha Artística

criação:
João Sousa Cardoso

interpretação:
Ana Deus e Ricardo Bueno com com Ana Maria Santos, Ana Sofia Rodrigues, Carlota Maricato, Catarina Vieira, David Arcanjo, Diogo Reis, Elisabete Piecho, Manon Capelline, Martim Correia, Maurícia Neves, Rogério Rosa, Sara Palácios e Wanderson Guedes

iluminação:
Miguel Ângelo Carneiro

produção:
Três Quatro Lente

produção associada:
Balleteatro

fotografia:
Catarina Oliveira

coprodução:
Centro Cultural Vila Flor, Maria Matos Teatro Municipal, Teatro Municipal da Guarda, Teatro Virgínia e Teatro Viriato

coprodução no âmbito da rede 5 sentidos

 

Um projeto Create to Connect com o apoio do Programa Cultura da União Europa

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