Patrícia Portela e Cláudia Jardim
Folha de Sala
Patrícia Portela e Cláudia Jardim fazem teatro, cinema e escrevem noutros projetos, como o Teatro Praga ou a Prado, e juntas são um duo com muita química daquela que não vem nas tabelas periódicas, mas que é tão fundamental como o oxigénio. Os espetáculos que fazem são jogos, armadilhas, peripécias e sobretudo “coisas” que se transformam noutras e que são acessíveis para qualquer idade.
Para compreendermos melhor a razão que as levou a fazer o espetáculo fábulas elementares, decidimos fazer-lhes algumas perguntas.
O que são fábulas elementares?
fábulas elementares são fábulas em que os elementos químicos são os heróis mas também o tesouro a encontrar e os crimes da história. Todos os dias nos confrontamos com inúmeros objetos na nossa vida muitas vezes sem sabermos de onde veem nem do que são feitos. Em fábulas elementares, conta-se a história secreta de muitos dos objetos diários que usamos e sobre os quais pouco sabemos.
Acham que materiais como a madeira, o metal, o plástico ou o vidro também falam como os animais?
Achamos que todos os materiais têm uma história, têm um passado e são o resultado de alguma transformação, de alguma ideia ou de algum processo químico ou biológico. É sobre estas histórias que queremos falar.
Como é que tiveram a ideia de fazer um espetáculo sobre os materiais que existem à nossa volta?
A ideia surgiu depois de Hortus de Patrícia Portela e Christoph de Boeck, uma instalação para jardins sobre a relação entre os homens e a natureza que o rodeia estreada também no Teatro Maria Matos em 2012. Em conversa, as duas descobrimos que a nossa relação com os objetos e com os materiais que utilizamos é muito deficiente e decidimos trabalhar sobre isso.
Acham que tudo se transforma? Por exemplo o sapatinho de cristal da Gata Borralheira pode transformar-se num ténis com sola de borracha?
Um sapatinho de cristal, se for entregue no vidrão para reciclar, é moído e transforma-se em areia que depois é usada para fazer cimento e construir prédios na nossa cidade. Ou seja, a casa do nosso vizinho pode bem ser feita das nossas garrafas de sumo de laranja ou de azeite. Sabiam que a maioria das notas de 100 dólares são feitas de calças de ganga recicladas? Não estamos a brincar. E muitas das caixas da Telepizza são feitas de cartão reciclado a partir de documentos altamente confidenciais dos serviços secretos norte-americanos. E poderíamos continuar…
Fazem experiências na vossa casa?
Sempre. E em todas as divisões da casa. Experimentamos novos menus para o jantar, novas arrumações de objetos no quarto, novos produtos de limpeza que transformem as nossas mais velhas camisolas em roupa brilhantíssima de alta-costura, experimentamos com tudo e em todo o lado. Criar é pegar numa coisa e experimentá-la, transformá-la noutra coisa, adaptá-la ao nosso contexto, fazê-la transmitir o que nos vai na cabeça ou mesmo aquilo em que ainda não conseguimos pensar. Experimentar é ter uma ideia e pô-la em prática.
Qual foi a descoberta mais surpreendente que tiveram?
Que o mundo é quase todo feito de ar e ainda assim é bem pesado.
Já conseguiram transformar chumbo em ouro?
É o que tentamos fazer todos os dias com a criação de novos espetáculos.
Depois de assistir a fábulas elementares, garantimos que terão muitas ideias para fazerem novas experiências em casa e para olharem para os vossos objetos preferidos com outros olhos.
Sinopse
sessão domingo 16h30 – cancelada
Em fábulas elementares, as coisas são protagonistas.
Num mundo que depende de materiais que parecem ter os dias contados e de outros que parecem regenerar-se infinitamente, fábulas elementares é um espetáculo que se faz entre um laboratório e uma conversa radiofónica sobre as coisas que constroem a(s) nossa (s) história(s).