Sinopse
EM REUNIÃO
das reuniões como práticas performativas | das práticas performativas como reuniões
coorganização baldio ― estudos de performance e Teatro Maria Matos
SEMINÁRIO 11h-13h / 14h30-17h30
ANDRÉ LEPECKI
O descomunal, o incomum, o desconforme, o díspar: para uma arte no contrafluxo
mmcafé ● ENTRADA LIVRE máximo 15 participantes. Inscrição obrigatória até 7 março com envio de nota biográfica e carta de motivação; sujeito a seleção: info@arquivoteatromariamatos.pt
Neste seminário, serão abordados alguns conceitos da filosofia política e da teoria da performance que ajudam a mapear as ideologias cinéticas e estéticas que informam o fluxo policial do neoliberalismo atual. Paralelamente, refletir-se-á sobre alguns casos na história da performance art na qual o desconforme, o incomum, o díspar, o vago lançaram possibilidades de concretização de uma vida outra.
CONFERÊNCIA 18h
RUI CATALÃO, SÍLVIA PINTO COELHO, ANA BIGOTTE VIEIRA E JOANA BRAGA
Da emergência dos encontros
sala principal ● ENTRADA LIVRE (sujeita à lotação da sala) mediante levantamento prévio de bilhete no próprio dia a partir das 10h30
Em três apresentações de 20 minutos cada, abordar-se-ão as práticas performativas como momentos privilegiados de encontro. Falar-se-á de espetáculos, processos criativos e de pequenas intervenções transdisciplinares disseminadas pela cidade.
A TRABALHAR COM ELES, Rui Catalão
Em 2000, trabalhei com João Fiadeiro para uma peça que se chamou O que eu sou não fui sozinho. Desde então, trabalhando com outros coreógrafos, com gente da dança ou do teatro, todo o meu trabalho artístico moveu-se num território ambíguo, já que eu não trabalhava “para”, mas “com”, assumindo as minhas ideias, e arriscando o ponto de rutura, até chegar à foz do trabalho (enquanto expressão unificadora de todas as pessoas nele envolvido). Isso implicou uma experiência pelos meandros do ego, do status, do controle, da manipulação, em suma, das relações com o poder. Para mim a reunião não é bem um ponto de partida mas de chegada, e a chave está menos nas dinâmicas de liderança do que na colaboração propriamente dita.
NA CASA-ESPELHO: PROPOSTAS ÉTICO-ESTÉTICAS DE PENSAMENTO COREOGRÁFICO, Sílvia Pinto Coelho
Em Caosmose, Guattari assinala o facto dos grandes movimentos de subjetivação não tenderem necessariamente para a emancipação. Proponho, com Guattari, olhar para paradigmas ético-estéticos como forma de evitar reterritorializações conservadoras da subjetividade. À proposta de Guattari, que pressupõe que a entrada “em relação com” seja anterior à formação de identidades e de indivíduos, junto uma questão que André Lepecki coloca no seu texto Coreopolítica e Coreopolícia (2011: 49): «Podem a dança e a cidade refazer o espaço de circulação numa coreopolítica que afirme um movimento para uma outra vida, mais alegre, potente, humanizada, e menos reprodutora de uma cinética insuportavelmente cansativa, se bem que agitada e com certeza espetacular?».
DA EMERGÊNCIA DOS ENCONTROS, Ana Bigotte Vieira, Joana Braga
Há hoje uma multiplicidade de práticas interdisciplinares críticas, de pequena escala, que com poucos meios agem em público, propondo a experimentação de formas de trabalhar e de viver em conjunto: modos de colaboração que se experimentam, espaços que se partilham, tarefas que se combinam. Muitas vezes situando-se na fronteira entre o artístico, o político e o social, assumem configurações variáveis, tendo em comum a criação de um espaço para a emergência dos encontros, numa altura em que o encontro, por razões políticas, é uma emergência. “People have been finding each other” disse-nos Gigi Argyropolou, referindo-se à efervescência da cidade de Atenas nos últimos anos. Sabendo que não abarcaremos tudo — e ainda bem — gostávamos de, sob o mesmo mote, viajar pelos encontros que nos últimos tempos emergiram em Lisboa.
Trate-se de juntar gente, esforços, saberes, meios… reunir parece ser condição essencial para agir coletivamente. E é elemento essencial no trabalho do palco.
A reunião é a um tempo só um início e um momento de balanço. Mas as reuniões existem sempre em situação, são contextuais, e dependem inteiramente de quem as faz, de como são feitas, e para quê. São absolutamente performativas. Sendo, em si, um tipo particular de ação, precedem outras ações mais visíveis: são como que os bastidores dessas ações, o lugar onde elas se decidem.
Google-se a palavra e aparecem: reuniões de pais, de operários, summits, eucaristias, entrevistas de emprego… Encontram-se reuniões de e é esse de que lhes parece dar a forma e o tom, o que deixa no ar a questão de como serão as reuniões, qual a performance que levam a cabo, quando esse de não é um dado adquirido, mas sim algo em construção, feito de cumplicidades, consensos, desacordos, conflitos, tomadas de decisão participadas; quando esse de incorpora a ecologia particular de um lugar.
Se as reuniões podem ser vistas como práticas performativas (implicam uma distribuição de papéis e de funções), as práticas performativas assentam no ato de reunir. O próprio teatro é sempre criação coletiva e qualquer espetáculo reúne público e atores, tradicionalmente de dois lados dos holofotes, mas os modos desta relação têm-se expandido, juntando-se lado a lado atores e participantes em projetos comunitários ou espetáculos participativos.
Virar as coisas do avesso, olhar para este momento que fica entre o que já fizemos e o que vamos fazer, e que, refletindo o passado, abre lugar ao futuro, é a nossa proposta. Porque nos parece fazer falta tanto recativar as capacidades de uma possível ação coletiva como compreender os moldes, os limites e as possibilidades de como a colocar em prática, propomos ao espaço do teatro (em si lugar de reunião) que esteja em reunião.
Tendo como ferramentas os vários tipos de reunião (possíveis, desejáveis, imagináveis, praticáveis), O Teatro Maria Matos e o baldio propõem que nos encontremos durante dois dias no teatro, num conjunto de eventos que exploram variações sobre este tipo de encontro: uma reunião de reuniões no palco do teatro.
