The Expanding Flower Planet
Folha de Sala
Angel Deradoorian (n.1986) nasceu e cresceu numa pequena cidade próxima de Sacramento, Califórnia, dentro de uma família que sempre a estimulou a ser criativa e a estar próxima das artes. Começou com o violino, passou para o piano, agarrou a guitarra, o baixo, e foi ganhando engenho numa grande variedade de instrumentos. Na adolescência, a música começou a ser uma parte central da sua vida e o sistema formatado de educação não lhe dava o que queria, por isso aos 16 anos deixou o liceu para se focar na música, um ato de rebelião que teve o apoio dos seus pais.
Pouco antes dos 18 anos decide sair de casa e os concertos pela estrada fora levam-na, passado algum tempo, ao outro lado dos Estados Unidos: Brooklyn. Em meados dos anos 2000, era essa a capital da efervescência musical e os Dirty Projectors eram um dos projetos que aparecia à tona da cena indie de Nova Iorque. Conheceu Amber Coffman que a convidou para o grupo mas as saudades da costa Oeste, onde desejou voltar para fazer o seu álbum, fizeram-na recusar o primeiro convite. Aceitou o segundo. Bitte Orca, um dos melhores álbuns dos Dirty Projectors, seria o resultado da entrada de Angel Deradoorian na banda: um álbum exato e florescente, que mostra o fruto de lendários ensaios intermináveis. Se é verdade que Dirty Projectors é um filho de Dave Longstreth, também é verdade que sempre se abriu com generosidade aos seus colaboradores e Angel Deradoorian entregou o que tinha e trouxe muito quando em 2012 decide sair da banda. Muitas colaborações depois, The Expanding Flower Planet é, finalmente, o seu álbum de estreia. Edita-o na Anticon, editora comunitária de Los Angeles mais conhecida pelo hip hop e suas derivações menos óbvias, sendo a primeira mulher a ser incluída no seu catálogo. A imprensa enamora-se imediatamente pelas suas canções facilmente complexas, cheias de referências e mostrando um mundo de imagens e sons que nos entretêm e apaixonam: “deliciosamente fácil de nos perdermos”, diz o Guardian; “sensual e espiritual: Prince pode encontrar aqui uma alma-gémea”, diz o Independent; “hipnótico”, diz o Loud And Quiet; “um álbum cheio de ratoeiras, onde um único som inesperado pode colocar-nos em mundos novos”, diz a Pitchfork.
sobre a saída dos Dirty Projectors:
“Foi só uma questão logística. Só comecei a escrever para o meu álbum dois anos depois de editar Mind Raft porque estava a trabalhar imenso com os Dirty Projectors. Estávamos a começar mais um ciclo de um novo álbum e Dave Longstrengh e eu tivemos uma conversa sobre se seria adequado para mim, nessa altura, ou se devia fazer uma pausa e focar-me na minha própria música. Acabei por fazer isso e comecei a escrever as minhas coisas em 2011. Estava no meio dos meus vinte anos, sabendo que deveria começar nessa altura uma carreira. Teria de me focar mesmo nisso. Talvez fosse mais difícil agora. Ou talvez não.” Revista Interview (abril 2015)
sobre as influências musicais em The Expanding Flower Planet:
“Cresci a ouvir Beach Boys e obviamente que os Dirty Projectors tiveram um grande impacto na aprendizagem das minhas harmonias vocais. Contudo, eu diria que as minhas harmonias vêm mais do estilo de cantar búlgaro, mais dissonante, mais rude, mais coral. Em Komodo, as harmonias são mais… harmoniosas. Talvez possa relacioná-las aos anos 60.” Huffington Post (agosto 2015)
“Descobri isso tudo [o krautrock e a música do médio oriente] no fim dos meus anos de adolescência. Cresci a ouvir, maioritariamente, jazz, soul e r&b por causa do meu pai. Nunca ouvi os Beatles em criança e no secundário tive de aprender por mim quem eram os Led Zeppelin. Perceber que podia ir mais fundo e descobrir mais música era uma tarefa interessante. Descobri muitas coisas através de amigos. Em adolescente, ouvia muito Radiohead e Can. Bem, e que mais… ouvia mesmo muito Radiohead (risos).” Revista Interview (abril 2015)
“Para este disco ouvi muita música do médio oriente, indiana e japonesa. Ouvi bastante a série Éthiopiques porque adoro o som, a produção e os ritmos. Adoro a ligação polirrítmica entre os diversos instrumentos. Isso teve um papel muito importante em fazer com que as canções dialoguem umas com as outras.” Culture Collide (novembro 2015)
canção favorita:
“Gosto de Grow, a última canção do álbum. Gosto da segunda metade da canção porque me coloca num novo reino de coisas que me agradam muito musicalmente. Sinto que estava muito inspirada ao fazer essa canção. É um sentimento que vai e vem: às vezes detestamos a nossa música, outras vezes é o contrário. Há alturas em que ouço o álbum e é mesmo muito difícil para mim fazê-lo, noutros momentos ouço-o e dou umas palmadinhas nas minhas próprias costas.” Revista Interview (abril 2015)
sobre The Expanding Flower Planet ao vivo:
“Neste disco quis focar-me muito nas vozes. Acho que as pessoas reagem mais a isso, e eu e a minha irmã cantamos juntas desde crianças. Penso que será mais forte para as pessoas ouvirem esses tons em conjunto.” Culture Collide (novembro 2015)
“Quis fazer os concertos a solo mas precisava de uma outra voz, e quando comecei a ensaiar percebi que precisava também de alguém que tocasse bateria. Necessitava de algo que enchesse mais o espaço porque adaptar estas canções para uma pessoa apenas é complicado. Eu e a minha irmã Arlene conseguimos criar ótimas versões das canções, por isso obriguei-a a tocar bateria também (risos).” Huffington Post (agosto 2015)
Sinopse
A saída de Angel Deradoorian dos Dirty Projectors em 2012, depois de estar na sua formação durante 5 anos, só podia significar um salto em frente para uma aventura solitária, prometida há muitos anos com um pequeno EP que soube a pouco e não provou as suas reais capacidades. Bem ao contrário das múltiplas colaborações que lhe foram dando experiência, visibilidade e crédito suficientes para esta estreia em 2015: Vampire Weekend, Matmos, Flying Lotus, TheRoots ou Björk são alguns dos que se deixaram seduzir pelas suas qualidades; e com Dave Portner dos Animal Collective integrou, no ano passado, o projecto AveyTare’sSlasherFlicks.
Mas é ainda dos Dirty Projectors que parece ter importado a mais reconhecível influência para o seu The Expanding Flower Planet: a magnífica engenharia vocal polifónica que, justiça seja feita, também lhe pertence. Contudo a grande conquista de Deradoorian é criar o seu próprio mundo feito de mundos, de canções perfeitas e fantasiosas, de arranjos falsamente simples como se fossem melodias para embalar. Tudo parece nascer do zero, ignorando regras e convenções; e só assim se explica como este planeta se expande deste modo, ouvindo tribalismo em Ouneya, mitologia oriental em Komodo, krautrock luminoso em TheInvisible Man ou uma vertiginosa corrida sintética em The Eye. Em disco, um marco alternativo da pop de 2015; ao vivo, a destreza e confiança de assumir a construção disto tudo à nossa frente.