Marcelo Evelin/Demolition Inc. (Teresina)
Bios
Marcelo Evelin é coreógrafo, investigador e intérprete. Vive e trabalha na Europa desde 1986, onde actua na área da dança e doteatro físico, tendo colaborado com profissionais de variadas linguagens, nacionalidades e experiências, em projectos tambémenvolvendo música, vídeo, instalação e ocupação de espaços específicos.
É criador residente do Hetveem Theater em Amsterdão com sua companhia Demolition Inc., e ensina improvisação e composição na Escola Superior de Mímica de Amsterdão, onde também cria projectos e orienta estudantes em processos criativos. Orienta workshops e projectos colaborativos em vários países da Europa, Estados Unidos, África, América do Sul e Brasil, para onde regressou em 2006. Desde então tem trabalhado também como gestor e curador, além ter criado e coordenar, em Teresina – Piauí, o Núcleo do Dirceu, um colectivo de artistas independentes e plataforma de pesquisa e desenvolvimento das Artes Performáticas Contemporâneas, que por duas vezes foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA): Política Pública em Dança/2008 e por Formação, Difusão, Produção e Criação em Dança/2011. As suas mais recentes criações, Bull Dancing (2006),MONO (2008) e Matadouro (2010) têm sido apresentados no Brasil e no exterior. Este último encerra a trilogia baseada em Euclides da Cunha – a terra em Sertão (2003), o homem em Bull Dancing e agora, em Matadouro, a luta – e já foi apresentado no Rio de Janeiro, Teresina, São Paulo, Santos, Salvador, Bruxelas (Bélgica), Maastricht (Holanda), Liege (Bélgica), Lisboa (Portugal) e Kyoto (Japão).
Em Novembro de 2012 estreou no Festival Panorama de Dança/RJ De repente fica tudo preto de gente, contemplado com o Prémio Funarte Klauss Vianna de Dança, numa co- produção Brasil/Bélgica/Japão, com apresentações confirmadas para 2013 em Bruxelas |KunstenFestivaldesArts, Kyoto | Kyoto Experiment e Londres | Dance Umbrella.
CRIAÇÕES E INTERPRETAÇÕES
2012 | De repente fica tudo preto de gente
2010 | Matadouro
2008 | I Figure – Escola Superior de Artes de Amsterdam
2008 | Cromwel – Núcleo do Dirceu
2007 |MONO
2007 | Palimpsesto – Núcleo do Dirceu
2006 a 2009 | Projeto Instantâneo – Núcleo do Dirceu
2006 | Bull Dancing
2005 | Loaded + Lus Van de Pligth
2005 | Luoghi de Solitudene + Alex Guerra
2004 | Sertão
2004 | Self Service + Atelier de Coreografos
2003 | Mijn Huis/Jouw Huis + Anne Karin ten Bosch
2002 | Sacre
2002 | Thuiskomen + Anne Karin ten Bosch
2001 | Co-Incidence
2000 | C.Q.D
2000 | Sitters
1999 | Alarma de Silencio
Folha de Sala
ENTREVISTA COM MARCELO EVELIN
publicada no Website do Festival Transamérique (Montréal, Canada) www.fta.qc.ca
No cerne de De repente fica tudo preto de gente está a questão da comunidade humana e de viver em conjunto. Intérpretes e espectadores partilham o mesmo espaço, mantendo-se, no entanto, e apesar de tudo, duas entidades relativamente separadas.
É óbvio que toda a gente sabe que os intérpretes trabalharam na obra durante três meses e que são pagos para lá estarem, mas o facto de o espaço ser volúvel elimina a zona de segurança do público e altera as regras do jogo.
O espectador sabe que tem de se mover mas não sabe o que vai acontecer. Isso fá-lo pensar antes mesmo de o espetáculo começar, o que realmente me agrada.
Nada permite ao espectador antecipar os movimentos dos bailarinos ou evitar a possibilidade de sujar a roupa ao entrar em contacto com os intérpretes, o que cria mais tensão.
Tudo isso favorece o encontro e o viver uma experiência partilhada, ainda que as experiências sejam bastante diferentes. Os espectadores podem, por exemplo, recuar para evitarem sujar-se ou optar por se manterem expostos a essa possibilidade. No Brasil, um fotógrafo fez uma série de retratos do público a sair do teatro e as pessoas orgulhavam-se das manchas e das nódoas.
É uma prova tangível e esplêndida de que houve um encontro.
Eu estava mesmo a tentar pensar no mundo como uma comunidade, a tentar compreender aquilo que somos.
O livro Masse und Macht [Massa e Poder], de Elias Canetti, foi uma grande inspiração. Ele fala sobre o que acontece quando se reúnem massas de pessoas e sobre os diferentes tipos de multidões — aberta e fechada, em fuga, invisível. Quando viajámos para Tóquio, eu fiquei fascinado com as catervas de indivíduos que afluem ao cruzamento do lado de fora da estação de Shibuya, a passagem de peões mais movimentada do mundo, mas sem se tocarem, até sem se falarem ou olharem. É de tal forma distante da nossa experiência no Brasil que levantou questões sobre as diferentes formas de os humanos se juntarem e reunirem.
Uma das coisas mais importantes que Canetti assinala é que o medo mais comum é o medo do outro, mas perdemos esse medo quando os corpos estão próximos, quando estamos em contacto físico com o outro.
Para ultrapassar esse medo, trabalhámos naquilo que se partilha nesse contacto — a ideia de se estar sozinho na multidão, formas de se aproximar do outro deixando-se ser guiado pela experiência sensorial, de modo a ultrapassar os limites pessoais.
Os corpos procuram-se uns aos outros, não de uma forma intelectual ou social, mas de uma forma animal e essencialmente humana.
A principal razão que o levou a optar pela nudez também está presente em trabalhos anteriores?
Ao trabalhar sobre o corpo — e a dança é uma das suas expressões mais interessantes — ganhei um terror ao vestuário, o qual constitui um filtro cultural.
Prefiro deixar o corpo exposto em toda a sua força e fragilidade, eliminando todas as camadas que existem entre nós e os outros, de modo a estabelecer um relacionamento direto com o outro.
Na verdade, adorava organizar um espetáculo em que os espectadores estivessem nus. No caso desta obra, cobrir os corpos de óleo alimentar e carvão impunha naturalmente a nudez, mas era também uma escolha política, dado que o corpo nu é forte. Não esconde nada. Transmite uma certa transparência do ser humano, um estado de rendição e vulnerabilidade que, no Brasil, é muito preocupante. Introduz a noção de erotismo que muitas vezes falta na dança, a qual é frequentemente demasiado artística com as suas formas bonitas e ideias grandiosas.
Penso que também é importante explorar a ligação erótica entre os humanos, sem falar necessariamente de sexo, mas mais da maneira como Georges Bataille a concebe.
Já apresentou este trabalho em três continentes. Houve diferenças assinaláveis na reação do público?
A resposta do público é inacreditavelmente a mesma em todo o lado.
Isso foi uma grande surpresa para mim. Apercebi-me de que este espetáculo é uma coreografia para o público, porque os bailarinos são livres de escolher os movimentos e porque condicionam os movimentos da multidão de espectadores, que no seu conjunto se movem sempre da mesma forma.
E em todo o lado há a mesma diversidade de reações: as pessoas têm medo, fogem, afastam-se do espaço, enquanto outras permanecem perto dos bailarinos e falam com eles e, às vezes, até lhes tocam.
Esta obra tem qualquer coisa de combate, um combate não violento de relações com o outro, de possibilidades com o Outro. O Outro e a questão da alteridade estão no cerne do meu trabalho.
Quem é ele? Onde é que eu estou nele? Onde é que ele está em mim?
Eu sou brasileiro, mas também pode haver em mim um europeu, uma mulher, um inuíte. Claro que nesta obra o Outro é o público.
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
Partindo de Massa e Poder, livro de Elias Canetti de 1960, De repente fica tudo preto de gente investiga a massa humana enquanto multidão de singularidades. A massa humana é uma aparição tão enigmática quanto universal, que, de repente, se forma onde antes nada havia. Espectadores e intérpretes partilham o espaço, lugar de combate e resistência. Sob a forma indistinta da massa, coabitam diferenças e o corpo torna-se lugar de encontros e de possibilidades. Marcelo Evelin coreografa o público, expondo-o aos movimentos imprevisíveis dos bailarinos e conduzindo, assim, uma experiência sensorial inédita e fascinante.
Figura emblemática da dança brasileira, Marcelo Evelin é coreógrafo, investigador e intérprete. Trabalha em Amesterdão há mais de 20 anos e há oito que se divide entre a Holanda e o Brasil, onde fundou o Núcleo do Dirceu, plataforma de artistas contemporâneos independentes que coordenou até meados de 2013. Regressa ao Teatro Maria Matos depois de aqui ter apresentado Matadouro, um espetáculo inesquecível sobre o Sertão brasileiro.
DIGRESSÃO
2014
/ Malta Festival, Poznan, Polónia, 20-21 Junho
/ Festival TransAmériques, Montréal, Canadá, 1-3 Junho
/ Spring Performing Arts Festival, Utreque, Países Baixos, 16-17 Maio
/ Festival Bo:m, Seul, Coréia do Sul, 1-3 Abril
/ LIG Arts Platform, Busan, Coréia do Sul, 29 Março
/1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, São Paulo, Brasil, 11-13 Março
2013
/ Dance Umbrella, Londres, 11-12 Outubro
/ Kyoto Experiment, 28 Set – 1 Outubro
/ De International Keuze, Roterdão, Holanda, 21-22 Setembro
/ SESC Belenzinho, São Paulo, Brasil, 14-15 Setembro
/ Bienal de Santos, São Paulo, Brasil, 11-12 Setembro
/ Galpão Galboa, Rio de Janeiro, Brasil, 7-9 Setembro
/ Kunstenfestivaldesarts, Les Halles de Schaerbeek, Bruxelas, Bélgica 19-25 Mai0
2012
/ Galpão do Núcleu do Dirceu, Teresina, Brasil, 14-17 Nov
/ Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil, 8-11 Nov
/ Panorama Festival/Teatro Sérgio Porto, Rio de Janeiro, 3-4 Nov