Stefan Kaegi e Lola Arias
Pertencer. O lugar do artista
Sinopse
“Conrad, Nabokov, Naipul — são escritores conhecidos pela forma como conseguiram promover cruzamentos entre linguagens, culturas, países, continentes e até civilizações. Os seus imaginários sempre foram alimentados pelo exílio, enriquecidos não por uma ideia de raízes, mas sim de um desenraizamento; a minha, no entanto, requer que eu permaneça na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, a contemplar a mesma vista da janela. O destino de Istambul é o meu destino: estou ligado a esta cidade porque foi ela que fez de mim o que sou.”
Orhan Pamuk, Istanbul. Memories of a City, 2005
Num tempo caracterizado por migrações globais e trabalho deslocalizado, a criação artística está a sofrer alterações profundas nas suas condições de produção e distribuição. Cada vez mais artistas criam a sua obra longe do seu país de origem, através de programas de residências artísticas, por convite de coprodutores estrangeiros ou simplesmente porque decidiram emigrar. Outros tecem teias de parentesco artístico com criadores que vivem e trabalham a grandes distâncias ou assumem com toda a naturalidade que as suas obras serão usufruídas por públicos de países e culturas diferentes dos seus. A criação contemporânea opera numa escala supranacional e a velha afirmação de que os artistas pertencem à pátria e representam a sua cultura perdeu validade.
No entanto, há qualquer coisa de inalienável na criação artística, algo que não se deixa deslocalizar ou internacionalizar. Seis artistas convidados demonstram de variadas formas e através dos seus próprios percursos como, também nas artes, tornou-se inevitável repensar o conteúdo da palavra “pertencer”.
Como se pode exportar ideias sem que elas percam o seu caráter impactante? Pode um festival fazer perguntas globais e esperar respostas locais?
Quartos de hotel, centros comerciais, fábricas… são sítios funcionais que, geralmente, não suscitam grande interesse. Em Ciudades Paralelas, Lola Arias e Stefan Kaegi convidam artistas como Ant Hampton, Tim Etchells, Christian Garcia, Mariano Pensotti, Gerardo Nauman, Ligna e Dominic Huber para conceberem intervenções em espaços comuns a todas as cidades do mundo. Alguns deles escolheram trabalhar com recetores de rádio ou com auscultadores, outros com um coro ou com as pessoas que estão no seu local de trabalho. Algumas peças são para uma pessoa, outras para 100. Alguns performers são cantores, outros escritores, transeuntes ou até mesmo o próprio público.
Desde 2001, os oito projetos têm sido apresentados com diferentes intérpretes em Berlim, Buenos Aires, Varsóvia e Zurique. Agora Lola Arias e Stefan Kaegi chegam a Lisboa para apresentar o festival em quatro ecrãs em simultâneo numa instalação sincronizada que permite a audiência interagir com as encenações locais destas ideias “transportáveis”.