Big Wheel And Others
Folha de Sala
Big Wheel and Others é, de longe, o teu álbum mais longo e épico. O que te levou a fazer um álbum duplo?
Nenhuma razão em particular. Exceto, talvez, eu não me ter conseguido separar de algumas das canções. Não foi por causa da minha produção. Há sempre algo que se omite. Neste álbum houve apenas duas ou três canções que ficaram de fora, mas, que por acaso, acabariam por ser também utilizadas como extras num single.
De certa maneira, este é também o teu álbum mais clássico. Parece que te agrada pegar nos estilos tradicionais e brincar com eles, usar os blues e a country e dar-lhes a volta. É algo que procuras fazer?
Eu acho que é apenas a forma como se toca. Nunca falámos sobre isso, eu não fiz circular nenhum tipo de referências. Na verdade, houve apenas uma referência. Foi o álbum de Eden Ahbez. Não o usámos como referência estética, mas apenas para nos dar o mood, uma espécie de ambiente tiki.
Big Wheel, em particular, assemelha-se a uma apresentação algo satírica do machismo da música country. É apenas uma exploração de uma personagem ou é sobre o significado de ser homem nos dias de hoje?
Foi tudo divertimento apenas, não existe grande explicação. Isso nunca me ocorreu, mas é fantástico que acabe por transmitir as coisas assim.
Há muita diversidade neste álbum, mas tudo soa muito contínuo. Também li que o mesmo grupo de músicos apenas tocou em duas canções. Como é que conseguiste esta união?
Não sei a razão desta coesão. Havia uma política de porta aberta: quem aparecesse podia tocar no disco. Às vezes, havia malta que chegava cedo, mas nós já estávamos a gravar as canções. Ou ficavam à espera das próximas, ou iam embora, ou voltavam mais tarde. Estava tudo vagamente organizado.
Está a ser um período muito prolífico para ti, com dois álbuns em 2011 e um duplo álbum em 2013. Li algures que andavas a gravar um tema por dia. Como é o teu processo, das demos até às gravações finais? É sempre diferente?
Não há método absolutamente nenhum. Quero dizer, desde rebolar-me no chão em agonia até pedinchar dinheiro para a gravação, não há nenhum sistema. Não há uma maneira simpática de fazer um disco. Gravar é sofrer. E nós gravámos, por vezes, bem mais do que uma canção por dia — a maioria foi gravada em cinco dias. Gravávamos cinco ou seis canções por dia com poucos, ou nenhuns, overdubs. A maioria foi gravada 100% ao vivo no estúdio. Quando se tem esta postura, tal como tive nos outros discos, temos de aprender a viver com as falhas. Pessoalmente, gosto de ouvir os defeitos. Não gosto quando as coisas são super limpas: parece irreal. Como se se tentasse disfarçar a corrupção que existe em nós, enquanto seres humanos.
Já falaste no passado sobre a diferença entre a experiência de tocar ao vivo e as gravações em estúdio. Andar em digressão e tocar em frente ao público é a parte mais gratificante de todo o processo, por oposição às gravações?
Totalmente. Para mim isso é tudo. A gravação consiste em demos e pouco mais. A parte ao vivo é um momento tão efémero e transitório, acho que é quando tudo acontece. Para mim os álbuns não são um documento. Uma canção representa um momento, tal como qualquer outra experiência na nossa vida. Talvez haja um vírus que apague tudo o que está gravado. Talvez o vinil derreta e uma nova vida apareça. Talvez não haja nada corpóreo na era do Aquário.
Quando tocas ao vivo, tens consciência da vibração que vem do público? Sentes essa energia das pessoas?
Às vezes, olho para trás e penso “a energia deste público fez-nos mesmo dar o salto”. Por vezes, sentes fisicamente que eles querem que sejamos ainda mais expansivos. Mas isto é mesmo em retrospetiva. Até acho que não há muito raciocínio durante o concerto — é como se fosses um atleta. Não se está a pensar no que se está a fazer. Estamos totalmente imersos nos nossos impulsos e temos apenas de confiar nos nossos instintos. Olhando para trás, para aquele momento, talvez possamos dizer que estivemos todos juntos.
Escreves a música e as letras ao mesmo tempo? Ou abandonas as canções e escreves as letras um ano depois, por exemplo?
Talvez tenha havido uns casos em que tenha havido um distanciamento no tempo, mas é mais como se o tempo tivesse ficado suspenso enquanto a canção não está terminada. É necessária muita subtileza. Por exemplo, se escreveres um poema e quiseres arranjar música para ele, bem, nada te assegura que não irás precisar de reescrever as letras. Até podes mudar todas as palavras, mas tens de começar nalgum sítio. No final, não é uma canção até estar equilibrada.
Já ouviste versões das tuas canções por outras pessoas?
Algumas, sim. Gostei. Aliás, esse é o meu objetivo. Ter canções que continuam… Eu sinto que as minhas versões são apenas demonstrações de como eu toco as minhas canções. Como escritor de canções, este é mesmo o mais importante tributo que alguém te presta.
Gostas de tocar canções antigas?
Eu gosto de tocar canções antigas… quer dizer, algumas. Outras são muito difíceis. De alguma forma, é mais entusiasmante tocar canções antigas por ser uma oportunidade de aceder a uma espécie de antigo “eu”. O problema de tocar ao vivo é a ansiedade de se estar confinado aos limites do tempo e espaço dessa ação, enquanto as canções são sempre meios de chegarmos a memórias e antigas personalidades e, talvez, aprendermos a melhorar com elas.
Achas que és uma pessoa muito nostálgica?
Penso que sim. Mas também não quero remexer muito no passado. Acho que somos sempre um pouco das duas coisas: somos nostálgicos pela nossa juventude, em particular. Quer dizer, quando temos 6 anos, por exemplo, durante as primeiras experiências. Mas quando crescemos… Esta é uma pergunta complicada…
Consegues dar-me uma lista de 5 discos preferidos?
Existem tantos discos!
Então e do último ano?
Bom, eu observo a música do ponto de vista político. Mas, às vezes, aquilo que acho politizado, não o é, na verdade. É comum vermos o oposto do que é. Canções ativistas dos anos 50 e 60? Joe Hill, sim, claro, é obviamente música para chegar a um fim político. Mas desde então tudo se tem tornado meio difuso. E é por isso que tenho ouvido muita música reggae, porque parece trilhar a fronteira entre as ambições espirituais e as ambições humanitárias ou políticas. É o perfeito equilíbrio das duas coisas. A música tem tantas facetas: tem tudo que ver com a tua perspetiva. E as perceções que temos estão sistematicamente a mudar. Uma canção nunca é política para sempre, e nunca estará sempre na berra porque as nossas perceções alteram-se. Por isso, não posso escolher cinco canções. Posso escolher cinco mil?
excertos editados de entrevistas com Cass McCombs publicadas por Spin, Stereogum e Amoeba
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
Na primavera passada, enquanto contávamos os dias para recebê-lo, Cass McCombs anunciou que uma queda e um braço partido o impossibilitariam de fazer a sua digressão europeia deixando-nos desiludidos, sem concerto. Aos poucos, enquanto esperávamos as boas novas da sua recuperação, fomos percebendo que a má notícia se transformaria numa boa nova, logo depois do verão. Big Wheel and Others foi começando a ser anunciado como o seu sétimo álbum e, talvez graças à pausa forçada, foi ganhando minutos e ambição, tornando-se, em outubro, num duplo disco de originais. E se é verdade que gastámos alguns preciosos adjetivos quando falámos de Cass McCombs pela primeira vez, nada nos dá mais alegria que voltar a repetir alguns deles, pois Big Wheel and Others consegue dar-nos mais um punhado de canções certeiras e arranjos perfeitos possuídos pelo espírito da fiel tradição cancioneira norte-americana — da poeira do deserto à soalheira Califórnia, entre blues e genuína americana. Inevitavelmente, esta é mais uma coleção notável de canções que ombreia com a sua luminosa discografia, na qual quase todos os temas parecem nascer com o paradigma de clássicos instantâneos. O desalento e a espera não foram fáceis, mas não podíamos esperar melhor recompensa do que ter Big Wheels and Others para usufruir no concerto prometido.