Tiago Rodrigues/Mundo Perfeito
Folha de Sala
Decoração de interiores
“A última coisa a sair dos nossos lábios moribundos pode muito bem ser um poema.” É o que escreve o ensaísta Joseph Brodsky. Isto ou algo muito parecido. Cito de memória. Brodsky defende que o poema nasce como um mecanismo que nos ajuda a apreender um mundo, simplificando a tarefa de apreender esse mundo. O poema seria então, mais do que um fim, um meio ou ferramenta para chegar ao objetivo de saber um mundo de cor. Assim, a poesia seria a arte de criar mnemónicas.
“Como se estivesse consciente da fragilidade e desonestidade das faculdades humanas, o poema aponta ao alvo da memória humana, porque a memória costuma ser a última coisa a desaparecer, mesmo quando toda a nossa existência se desfaz à nossa volta, como se quiséssemos guardar uma memória do próprio desaparecimento”. Mais uma vez, cito de cor Joseph Brodsky. E sei do que ele fala quando defende que a nossa fisiologia é indefesa perante a invasão poética. Por causa do meu trabalho como ator, há textos que entraram em mim, que se instalaram e que nunca mais me abandonaram. São inquilinos discretos que habitam a minha memória, mas que podem ser acordados a qualquer momento.
É precisamente por ser o orgulhoso senhorio de todos estes inquilinos da memória que, quando a minha avó trasmontana estava a ficar cega e me pediu que escolhesse um livro para ela aprender de cor, para poder ler mentalmente quando deixasse de ver, embarquei numa viagem. Uma viagem literária e labiríntica que ainda está a acontecer. Enquanto procurava o livro definitivo para a minha avó guardar na memória, criei um espetáculo intitulado By Heart, onde ensino um soneto de Shakespeare a dez espectadores que se voluntariam para subir ao palco.
Neste espetáculo, conto histórias relacionadas com a minha avó, Boris Pasternak ou Ray Bradbury. Cito o professor de literatura George Steiner que chama aos textos que guardamos na memória “a decoração da casa do nosso interior”, talvez ignorante de que em português “decorar” é sinónimo de “aprender de cor” (embora me custe a acreditar que Steiner não saiba tudo). Esta peça é, no fundo, um retrato da busca do livro definitivo, o único que a minha avó guardaria na cabeça quando os olhos lhe falhassem.
Durante o espetáculo também recordo a história de Nadejda, a mulher de Ossip Mandelstam. Quando o poeta russo foi preso e os seus livros confiscados, ela passou a ensinar um poema a dez pessoas de cada vez na sua cozinha. Para que o marido continuasse a ser publicado na memória das pessoas. E é isso que tento fazer. Ensino o soneto 30 de William Shakespeare a dez espectadores em cada espetáculo. Um dos sonetos do livro que escolhi para que a minha avó aprendesse de cor.
Embora já tenha cumprido a missão de escolher o seu último livro, continuo a viagem, porque assim se opera os tráfegos da memória. Desde há um ano, tenho apresentado este espetáculo em Portugal, Espanha e França. Continuarei na Alemanha, Suíça, Canadá, Estados Unidos da América, etc. Já são algumas centenas, os espectadores que, em várias línguas, aprenderam este soneto ao meu lado, no palco. E hesito em acreditar que, mesmo quando terminar a digressão da peça, alguma vez termine este périplo. Porque sei que é uma viagem em busca daquelas que poderão vir a ser as últimas palavras da minha avó. E talvez até as minhas próprias últimas palavras. O soneto 30 começa assim: quando em meu mudo e doce pensamento / chamo à lembrança as coisas que passaram.
Tiago Rodrigues
By Heart
George Steiner diz que “quando uma linguagem morre, morre igualmente uma forma de olhar o mundo”. Diz-nos também que estamos no fim da era dos livros. Quando Tiago Rodrigues junta 10 espectadores e lhes pede para aprenderem de cor (by heart) um soneto de Shakespeare, pede-lhes que aprendam “com o coração”, oferece a possibilidade da poética aliada à experiência da poesia. Cumpre, inevitavelmente o papel de bibliotecário do efémero. Se cada um decorar aquele soneto, ele sobreviverá para sempre de uma forma viral. E por isso o papel simbólico dos livros nesta obra. Formalmente este é o espetáculo mais simples que Tiago Rodrigues até hoje criou. Conceptualmente é, provavelmente, a sua obra mais complexa.
By Heart questiona o lugar do espectador e responsabiliza-o perante a experiência teatral. A viagem temporal que atravessa o espetáculo é, pois, a da responsabilização. A mesma viagem que a avó de Tiago decide empreender quando se obstina em memorizar um livro inteiro antes da inevitável cegueira que se avizinha (situação na peça, mas também na vida real).
Este ato de obstinação é o contrato que, em cada noite, o teatro celebra entre os atores e os espectadores. O contrato da memória, essa fronteira última da live art, que o poder tanto detesta, pois não se pode vender, comprar, medir ou taxar, e que transfere para cada espectador a responsabilização de algo que foi relevante mas efémero.
Rui Horta, coreógrafo
(exceto 26)
Sinopse
Le Figaro, novembro 2014
Em By Heart, Tiago Rodrigues ensina um poema a dez pessoas à frente do público. Enquanto os ensina, vai desfiando histórias sobre a sua avó quase cega e sobre escritores e personagens de livros que, de algum modo, estão ligados a ela e a ele próprio. Esses livros também estão lá, em palco, dentro de caixotes de fruta. E, à medida que cada par de versos vai sendo ensinado ao grupo, emergem ligações improváveis entre o vencedor do Nobel Boris Pasternak, uma cozinheira do Norte de Portugal e um programa de televisão holandês chamado Beleza e Consolação. By Heart é uma peça sobre a importância da transmissão, do invisível contrabando de palavras e ideias que apenas guardar um texto na memória pode oferecer. É sobre o esconderijo seguro que os textos proibidos sempre encontraram nos nossos cérebros e nos nossos corações, garantia de civilização mesmo nos tempos mais bárbaros e desolados. Como disse o teórico de literatura George Steiner numa entrevista ao programa de televisão Beleza e Consolação: “Assim que dez pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a KGB, a CIA ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver”.
Depois da estreia em 2013 e de uma digressão internacional de sucesso, voltamos a apresentar By Heart de Tiago Rodrigues, com uma sessão à tarde destinada especialmente às escolas secundárias.

