A U R O R A w/MFO
Folha de Sala
Em meados do ano passado, quando a Pitchfork perguntou a Ben Frost que tipo de atividade atlética era a sua preferida, o australiano respondeu perguntando se a pesca podia ser considerada como opção válida. É fácil acreditar que seja porque ninguém consegue imaginar que Ben Frost passe a vida mergulhado na adrenalina da sua música, expondo-se e expondo-nos a uma corrente fortíssima e muitas vezes turbulenta, de onde nem sempre saímos totalmente ilesos. Todos precisamos de carregar baterias e pode ser à beira de um rio que Ben Frost reencontre um equilíbrio para depois desequilibrar tudo à sua e nossa volta. A edição muito esperada, no ano passado, do sucessor de By The Throat – que ouvimos por duas ocasiões no Teatro Maria Matos, primeiro em formato coletivo com a sua família Bedroom Community (em 2009), depois apenas com Borgar Magnason (em 2011), – trouxe de volta a intensidade, a força e a violência do embate que conhecemos e gostamos na sua música. A U R O R A, escrito assim, com grafia agitada e audível, recontextualiza a sua eletrónica feita de eletricidade dentro de uma nova estrutura ritualística: mais poder, mais ritmo, mais dança, mais luzes brilhantes, como se comandasse uma gigantesca tropa do tamanho de uma nação e precisasse de lhe insuflar a tal adrenalina para um combate decisivo.
Com poucos momentos em que se possa recuperar o fôlego, A U R O R A responde amplamente ao desafio do autor: sentirmo-nos dentro de um frenético acelerador de partículas. Steel Wound, Theory of Machines, By The Throat e A U R O R A são as quatro etapas principais da caminhada que fez na última década e que o colocou, com total mérito, como um dos maiores estetas eletrónicos deste século, ultrapassando alguns limites que tínhamos adquiridos como seguros e oferecendo-nos, no meio da erupção da sua lava, belas ideias e paisagens. Pelo meio da sua discografia, Ben Frost foi destilando a sua energia vital em projetos mais controlados: bandas sonoras para cinema, televisão e coreografias, uma ópera, colaboração com o seu mentor “Rolex” Brian Eno, uma peça para orquestra com Daníel Bjarnason, instalação sonora para uma exposição de Richard Mosse sobre as milícias do Congo ou música para um perfume. Talvez seja esta múltipla profusão de plataformas onde a sua música se espraia que tenha colocado na sua cabeça que A U R O R A possa ter sido o seu último álbum, no sentido tradicional do termo. “Honestamente, não sei quantos mais discos terei em mim”, disse ao Guardian. “Nesta altura, nem sei se tenho mais algum. Ou quanto tempo mais o formato me irá satisfazer. Fiz a minha primeira ópera em 2013. Quero estar mais em contacto com o mundo físico, pôr as minhas mãos em algo grande. Tinha 19 anos quando comecei a fazer discos. E quando saí da Austrália tinha apenas 23 ou 24 anos, era ainda um miúdo. Muito me aconteceu desde então: vivi um terço da minha vida na Islândia. Nesta altura sou um homem velho.” Apesar disso, também confessa que os seus discos ajudaram a mapear momentos específicos da sua vida artística e pessoal, como retratos que ficam para serem recordados: na mesma entrevista diz que “um disco não é apenas um artefacto. Transforma-se num período da nossa vida, tal como uma conversa com uma pessoa como tu e o tempo passado nas partidas do aeroporto a discutir com os seguranças se a guitarra vai ou não caber no avião”.
E o que foi, então, este A U R O R A no meio da sua vida? Ainda ao Guardian diz: “tanto quanto me diz respeito, o júri ainda está por decidir o que este disco é. Há um press release e uma frase oficial que diz que este álbum é inspirado no Congo. Mas isso é tudo tanga porque eu não sei mesmo. Não me compete a mim dizê-lo. Acho que esse é um problema crescente: pessoas como eu têm de ser os curadores, os críticos e a porra dos artistas ao mesmo tempo. Alimentamos isso tudo. Provavelmente, não irei saber do que fala o meu disco por mais 10 anos”. À revista Clash reforça essa ideia que os seus discos deverão dispensar qualquer tipo de guia de audição e de como isso contamina a fruição. Diz ainda: “acho que é muito desnecessário para este tipo de música. Rejeito determinantemente o modo como as pessoas fazem ligações entre o meu trabalho e a música para filmes, por exemplo. Escrever bandas sonoras é jogar com colaborações e uma série de outros elementos que, coletivamente, conduzem a uma textura e uma narrativa. Se tiver uma relação com cinema, e eu tenho-a, é com a natureza do cinema em si, e não tem nada a ver com a sua música”.
Ainda assim, Ben Frost congratula-se pela atenção e carinho que todos têm pela sua produção musical, independentemente das associações forçadas que muitos poderão fazer. Contudo, é a liberdade que cada um tem com a sua obra que mais o entusiasma. Ainda à Clash, Frost declara-se “grato e impressionado em perceber o modo como as pessoas encontram os seus próprios caminhos para o meu trabalho, e como leem nas entrelinhas e descobrem uma linguagem para sentir as coisas que, muitas vezes, é muitíssimo certeira. Nunca é exatamente o que eu sinto, mas a maioria das vezes conseguem chegar lá. Penso que, na verdade, mais do que outra coisa, o que me deixa sentir o grau de sucesso, ou não, de uma obra é isso. A U R O R A, para mim, é fundamentalmente sobre luz, e a sua palete de cores é qualquer coisa que brilhe, garridamente ou como um néon. A influência do Richard Mosse neste trabalho foi muito grande, claro. E não é um disco que lide com a sombra. É muito mais sobre intensa luminescência – é isso que quero que seja”. Ao site Stereogum, Ben Frost aprofunda a sua interpretação de A U R O R A: “este álbum é sobre o equívoco, de muitas maneiras, da imagem sensorial que temos do nosso mundo. Nós operamos dentro de meios limitados e numa gama de frequências reduzida. Apenas temos a perceção das coisas que são necessárias para nós. E foi aqui que comecei a trabalhar com Richard Mosse para o Enclave: o modo como ele mostrava, literalmente, essoutro espectro de luz e nos dava uma situação familiar através dele revelava algo novo acerca da imagem, algo novo acerca da nossa realidade sem sintetizar nada. Contorcendo a perceção de uma situação já é, por si, uma ideia musical poderosíssima, e quero explorar isso através das minhas experiências. Passei muito tempo à volta da música eletrónica e, em particular, da música de dança durante o tempo que precedeu By The Throat, passei muito tempo também em festivais de música eletrónica acabando por ficar exposto à cultura da música de dança que sempre esteve fora da minha evolução musical. Eu nunca fui a raves quando era novo: eu ouvia os Nirvana! Não fazia parte da minha realidade. Por isso, o facto de estar recolocado dentro de uma genealogia que me transporta para a história da música de dança, faz de mim um observador com outro ponto de vista. A ideia de encontrar um espectro diferente dentro do meu próprio trabalho e tentar entrar dentro dos princípios fundamentais dessa necessidade de pulsação, repetição e ritmo, unifica tudo”. Tanto em disco como ao vivo, Ben Frost tem o mesmo desejo: “quero sentir que algo se dilacera. Quantidades massivas de energia condensada num ponto, que explode e irradia em direção a nós. É isso que eu quero: que nos sintamos encharcados em fotões”. Missão arriscada mas aliciante para Marcel Weber, do coletivo de artistas vídeo MFO, que irá traduzir este desejo para dentro da nossa sala, simulando um pequeno cosmos suspenso e flutuante, sujeito a relâmpagos e imagens que irão gravitar e dar-nos uma visualização possível da energia frenética de A U R O R A. Pela primeira vez, a música de Ben Frost pode ter encontrado uma dimensão visual à sua altura – e isso é um acontecimento muito importante.
excecionalmente não se aceitam reservas
Informamos que neste espetáculo há luz estroboscópica (strobe)
Sinopse
Desenganem-se se acham que vão fruir de um concerto audiovisual normal. A U R O R A ainda percorreu a estrada em 2014 como uma experiência convencional mas algum tempo depois a participação do projeto MFO, pela mão de Marcel Weber, expandiu o conceito audiovisual bem para além dos limites que habitualmente conhecemos, focando a colaboração na essência de A U R O R A: a luz. Ben Frost, arquiteto de emoções fortes e extremas, quis que a sua música e o seu público se sentissem como se estivessem dentro de um acelerador de partículas, elaborando pela primeira vez um espetáculo com grandeza visual. O trabalho experiente e original de Weber com luz e vídeo consegue em pleno esse objetivo, atirando-nos para uma outra dimensão para a qual estamos pouco preparados para experienciar num concerto. Construindo uma deslumbrante e fantasmagórica nuvem, tão literal e tangível quanto possível, no meio da nossa sala, vamos ser convidados a sentir a descarga elétrica e digital de A U R O R A com os nossos sentidos exultados por reflexos, brilhos e feixes de luz encadeados por imagens subliminares projetadas, como se sobrevoássemos todas as nossas memórias em colisão num turbilhão de sensações épicas. Raramente tão poderosa música encontra tão poderosa luz, e esta noite trará até nós esse acontecimento – tal como aconteceu no passado, na nossa sala, com By The Throat ou Music For Six Guitars.