Mariana Tenger Barros | Vera Mantero
Gender Trouble
Folha de Sala
Para este solo quis trabalhar com um material pouco estável, cuja forma tivesse uma duração curta. Algo que facilmente se transformasse. Parti de uma ideia do processo de envelhecimento em modo fast-forward, a pele a ficar flácida e os cremes a tentarem encobrir, até reverter o processo. Na vida, nada fica igual, tudo chega a um ponto em que ou termina, ou se torna numa outra coisa. O corpo está constantemente em mudança, células morrem a cada segundo, há processos infinitos de reconfiguração e adaptação. No entanto, temos uma enorme tendência a querer congelá-los, numa tentativa de atrasar um fim e manter uma determinada aparência, que vai de encontro a um modelo de beleza pré-estabelecido para a época. Tenho uma obsessão e uma grande curiosidade em observar a representação do corpo na arte, o corpo nos media, na publicidade, a sua relevância no culto da “fama” e no fenómeno do “ícone”. Interessa-me escavar nessas maneiras de apresentar o corpo, como esse corpo é depois destruído, os graus de intimidade e exposição que existem, assim como os mecanismos relacionados com formas de “cobrimos” os nossos corpos, como os delineamos e enfeitamos. O corpo de uma imagem, ou a imagem de um corpo? Eu tento entrar num lugar onde estes convergem, onde eu manipulo a minha própria imagem, articulando o meu estado sendo a “criadora e a criação” (ex: escultora e a escultura) ao mesmo tempo, tentando transcender os meus contornos, a minha identidade, o meu género, e todas as demais “etiquetas” sociais que nos são impostas.
Remixing body, body of old, body of now, my body now, forms in my body, ends of my body, body of other, an attempt of body, an empty body, a body cover, ghost body, the body decaying, the body still. Body, still.
Mariana Tengner Barros
Estou a escrever-te porque sinto que não me expliquei bem sobre porque criei esta imagem de uma mulher metade negra, metade branca (principalmente negra!). Do que me lembro agora foi de ter ficado muito impressionada, na história da Josephine Baker, com o impacto que o seu corpo teve na Europa (basicamente em França). Os homens ficaram loucos com ela, com aquela coisa exótica, aquela coisa louca, cómica e sexy (1). O seu corpo (quase nu) e as suas, digamos, dinâmicas (energia/movimento/comicidade) criou todo um frisson em torno dela. Logo, se quisesse trabalhar sobre ela eu teria de, de algum modo, trazer de volta o corpo dela, era incontornável. E, sendo branca, teria de me tornar negra para poder trazer de volta o seu corpo.
Claro que assim que pensei em pintar-me de negra adorei a ideia, porque na altura (e talvez ainda agora) interessava-me muito a ideia de metamorfosear o meu corpo. Adoro tudo o que seja mudar o nosso aspeto enquanto seres humanos, mudar a nossa imagem, transformando o que somos habitualmente, sendo outros seres, ainda que por pouco tempo.
Assim que pensei nisso também gostei imenso da ideia porque me apercebi imediatamente do efeito fortíssimo que uma pessoa ter duas cores ao mesmo tempo iria criar. Especialmente ser negra e ser branca ao mesmo tempo. Já não há nem um lado nem o outro, há os dois lados numa única entidade, duas “raças” num só corpo. “Recebo a tua cor em mim”. Há ainda a vibração ou fricção que a impossibilidade e o paradoxo criam.
E, de certa forma, a Josephine Baker também se tornou meio negra, meio branca ao longo da sua vida, porque ela foi completamente assimilada pela cultura branca europeia.
E há ainda, pelo menos, mais uma razão para esta “mulher de duas faces”, que é eu ter de me confrontar com a “missão” de fazer um solo sobre alguém (já tive este problema ao fazer um solo sobre o Nijinsky): como faço para assumir esta missão? Falo apenas da outra pessoa? Ou deverei falar também de mim?
Como me posiciono no “meio” desta pessoa, no meio deste trabalho sobre esta pessoa? A mulher branca e negra é também uma resposta a esta questão, faço uma espécie de fusão.
Outra coisa: os negros têm uma História (terrível) de tentarem tornar a sua pele branca. E eu sabia que estava a virar a história de pernas para o ar ao pintar-me de negra.
É por isso que e.e.cummings escreveu sobre ela o seguinte: “uma misteriosa Coisa, nem primitiva nem civilizada, ou para além do tempo, no sentido em que a emoção está para além da aritmética”.
carta de Vera Mantero a Aylin
Menores 30 anos: 5€

