Terry Riley's in C
Folha de Sala
No seu livro In C — Studies in Music Genesis and Structure, Robert Carl lança o desafio, normal quando obras simbólicas tentam perfurar os pesados limites da história, de compararmos In C aos grandes momentos de Mozart ou Bach. Mais do que averiguar em concreto se isso é ou não possível — ou necessário —, o que é relevante nesta provocação é expor-nos à tentativa de aceitarmos que a modernidade se intrometa no meio das referências consagradas. Na verdade, poucas composições têm o poder de In C: é uma obra simples, de impacto profundo e encantatório, que tanto nos liga à ancestralidade de África como à nova era e ao advento do minimalismo. Podemos circunscrever o nascimento da corrente na The Monotone-Silence Symphony de Yves Klein (1949), mas é em 1964 que Terry Riley marca o primeiro momento em que o minimalismo adquire a consistência necessária para elaborar uma obra-prima, influenciar todo um género musical e, durante estes 50 anos, remexer com uma cultura que se espraia bem além da música. Podemos acumular outros preferidos — e só fica bem termos afeto desmesurado por autores como Steve Reich ou La Monte Young —, mas In C fica como a primeira pedra para que pudéssemos testemunhar a sustentação de um género musical que iluminou a criação contemporânea nas décadas de 60 e 70. Se La Monte Young foi o responsável pelas drogas que libertaram os sentidos de Riley, já Reich, ao participar na primeira apresentação de In C, terá tido aí o momento inspirador da sua brilhante carreira. Foi um dos momentos definidores da revolução cultural dos anos 60, um apogeu da cena musical da Bay Area de São Francisco, mas foi continuamente uma obra instigadora de outras transformações musicais, dos anos 70 até hoje.
Adrian Utley é um desses músicos, mais contemporâneos, a escrever a sua versão seguindo as regras e os graus de liberdade que a composição permite. Cada interpretação é única, assente na leitura pessoal das orientações de Riley, em que não se especifica o número de repetições das 53 frases sequenciais, o seu andamento ou sequer a sua instrumentação. É sobretudo esta última hipótese que faz com que In C exista à nossa volta nas mais variadas maneiras — na ficha da peça, disponível na Wikipedia, poderão ver a imensidão, decerto incompleta, de algumas da gravações existentes, que vão desde os ensembles de saxofones a orquestra de computadores, ou de pianos e teclados a flautas e percussão. Utley, homem das guitarras, da guitarra de Portishead, só podia rodear-se de mais guitarristas, erguendo uma orquestra que consegue esplendidamente mostrar alguns dos mais belos milagres do In C.
“Comecei a tocar a peça com o Will Gregory e o Charles Hazlewood, com mais uma amigos, e fui guiado por eles. E comecei a perceber a beleza e complexidade do brilhante conceito de Terry Riley. Conhecia o Steve Reich, mas não sabia muito sobre Riley. Tocámos o ‘In C’ com diferentes instrumentos, que é como é suposto ser, mas eu e o Charles comecámos a falar que seria mesmo cool se fizéssemos com muitas guitarras elétricas e assim foi. E pensei que teria um efeito hipnótico se a tocássemos mais devagar e limitássemos a paleta. Juntar toda a gente foi simples, por conhecer inúmeros guitarristas, por terem gostado todos da ideia e por termos todos tocado antes numa peça que tinha escrito para cerca de 60 guitarristas. Tocar apenas com guitarras acaba por colar melhor o som, pois temos menos timbres que dominem e que se destaquem; e ter órgão fez-me recordar as primeiras obras de Steve Reich e Philip Glass: uma espécie de aceno ao movimento minimalista, tal como eu o perceciono.”
Há pouco mais de um mês, a Invada — editora de Geoff Barrow, colega de Utley nos Portishead e espinha-dorsal do projecto Beak> —, editou a gravação de uma sessão de In C efetuada em Bristol, no início deste ano. 18 guitarras, 4 órgãos, clarinete baixo e percussão caminhando lenta e inexoravelmente para um transe que poucas versões conseguem.
“Foi mítico. Se tentarmos e fizermos como da última vez, não vamos conseguir: tem de ser a sua própria cena. Tocámos recentemente na Polónia e eu e o Neil Smith tentámos preparar algo dentro da peça, uma espécie de dinâmicas. Não estava propriamente nas regras, mas decidimos que iríamos experimentar e ver o que acontecia. Foi impossível incluir isto no concerto. A peça tem a sua própria alma. É incrivelmente brilhante o modo como as frases funcionam quando estão umas contra as outras. O Terry Riley concebeu a peça para que resultasse desta forma e, de facto, resulta. É fantástico! Às vezes, ouço alguém como o Arvo Pärt, que é muito austero, e faz música litúrgica perfeita, mas sendo ele um muito melhor compositor, na verdade, Terry Riley é tão espiritual quanto Pärt.”
Se o ano começou com a gravação do disco de Adrian Utley e termina com este concerto no Teatro Maria Matos, integrando seis músicos locais, outra notícia que parece indicar a todos a importância desta obra monumental em 2013: pela primeira vez, In C vai ser recuperado dos masters originais para uma reedição em vinil de 180gr. No original, gravado por Riley em 1968, ou na sua versão para guitarras de Utley deste ano, In C é uma obra-prima que tem marcado todas as décadas desde a sua criação.
inclui excertos editados de entrevistas com Adrian Utley in The Quietus e Loud Than War
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
Embora não se saiba determinar o exato momento em que o conceito moderno de música minimal terá eclodido, há um quarteto de nomes que estarão sempre associados à introdução deste género na genealogia musical: Steve Reich, Philip Glass, La Monte Young e Terry Riley. Apesar de outros importantes compositores terem explorado as técnicas minimais durante a década de 60 — tanto norte-americanos (John Adams ou Tom Johnson) como europeus (Michael Nyman ou Ernstalbrecht Stiebler) — foram as obras dos quatro compositores acima citados que revestiram de importância o minimalismo no seio da composição contemporânea. In C, de Terry Riley, composta em 1964, é referenciada comummente com a mais influente peça do minimalismo. Contém meia centena de frases musicais, de extensão variável, que podem ser interpretadas repetidamente, sem limite — daí a duração oscilar entre os 15 minutos e as muitas horas de execução, embora seja habitual ouvirmos interpretações com tempos com cerca de uma hora. A mais recente versão desta obra-prima é assinada por Adrian Utley, membro dos Portishead, que se fez rodear por um grande ensemble de guitarristas, eletrificando suavemente a partitura e ligando-a subtilmente com o trabalho no wave de Glenn Branca ou Rhys Chatham. Relembrando o nosso último concerto de 2012 — Music For Six Guitars de Ben Frost —, neste ano voltamos a convocar vários guitarristas e um teclista portugueses para subirem ao palco e fazer-nos viajar ao big-bang do minimalismo, ouvindo uma das mais heterodoxas e hipnóticas versões de In C.