Organização Teatro Maria Matos e Unipop
Sinopse
Política. Provavelmente, nas duas últimas décadas, não haverá palavra cuja crise tenha sido mais vezes anunciada. A simples enunciação do termo parece suscitar cansaço, fastio, ou, na melhor das hipóteses, um comentário irónico, céptico, cínico. E contudo não existe outro caminho que não o de voltar, uma e outra vez, a discutir política, a questão estando no que se entende por política.
Por isso dizemos que este ciclo de sete debates propõe levar a política para além da política e a fórmula sinaliza a vontade de extravasar os debates que predominam na agenda da política institucional, reunindo, preferencialmente, analistas políticos, ministros, jornalistas, deputados, técnicos de sondagens ou cientistas políticos.
Decorrendo ao m das tardes de terça-feira no mmcafé, este ciclo trata então de construir um mapa de problemas, da ideia de representação à questão do populismo, passando pela política da plebe ou da multidão, do conceito de biopolítica às políticas de identidade e abordando a relação entre política e polícia.
13 de Outubro
Política, razão e emoção
Com Manuel Villaverde Cabral e Manuel Loff
A frequente utilização da ideia de populismo tem levado à sua banalização, a ponto de ser legítimo perguntar se nos tempos que correm populismo não é apenas a forma mais rápida de desautorizar projectos políticos de que se discorda [veja-se Laclau no dossier]. Simultaneamente assistimos a uma crescente tecnicização do debate político, de nindo-se a política enquanto assunto de especialistas que deverá privilegiar um tratamento preferencialmente racional, de acordo com o qual uma qualquer relação entre política e emoção reveste um sentido patológico.
Autor de O operariado nas vésperas da República e Cidadania e Equidade política em Portugal, entre outras obras, Manuel Villaverde Cabral é Investigador-Coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Lisboa, sendo actualmente Vice-Reitor da Universidade de Lisboa.
Manuel Lo é historiador, professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem vários trabalhos na área da História. Publicou recentemente O nosso século é Fascista! – O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945).
20 de Outubro
Políticas de identidade
Com Miguel Vale de Almeida e Marcos Cardão
Nas últimas décadas, a palavra identidade tornou- se um conceito recorrente no debate político [veja- se Hobsbawm no dossier]. A nível dos movimentos sociais tem sido frequentemente defendida a necessidade de construir identidades que, fundindo dimensões políticas e culturais, permitam a várias guras subalternas – colonizados, camponeses, indígenas, negros, mulheres, gays – forjar um poder de resistência e transformação que reaja às políticas de identidade dominantes, baseadas no colonialismo, no racismo, no machismo ou na homofobia. Entretanto, este identitarismo estratégico tem sido igualmente criticado pelo facto de ser incapaz de trabalhar uma alternativa que coloque em causa a própria ideia de uma política baseada na noção de identidade, deixando assim por problematizar categorias como nação, género ou família.
Miguel Vale de Almeida é antropólogo e professor no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). É também activista em movimentos LGBT. Tem várias obras publicadas sobre corpo, “raça” e género. Publicou recentemente A chave do armário – homossexualidade, casamento e família.
Marcos Cardão é historiador e bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT ). Realiza presentemente o seu doutoramento em História, no ISCTE, com uma tese intitulada Fado tropical: o luso-tropicalismo na segunda metade do Século XX.
27 de Outubro
A política “a partir de baixo”
Com Fátima Sá e Paula Godinho
Quando falamos de política tendemos a conceber uma actividade pro ssional que ocupa o quotidiano de executivos governamentais e representantes parlamentares. Entretanto sabemos que esta limitação destitui de politicidade a actividade dos que estão à margem daqueles círculos institucionais. Importa por isso recolocar a relação entre política e grupos menos privilegiados num plano de debate que não esteja subordinado aos critérios de nidos no quadro daqueles círculos institucionais, critérios estes que tendem a ignorar o que se poderia entender como experiências plebeias da política, experiências que remetem para conceitos como “economia moral da multidão” ou “armas dos fracos” e ecoam a história de inúmeros casos de resistência quotidiana e rebeldia popular [veja-se Thompson no dossier].
Fátima Sá é historiadora e professora no ISCTE. Tem trabalhado sobre História dos movimentos sociais, História da cultura popular e História conceptual. Entre outros, publicou Rebeldes e Insubmissos – Resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844).
Paula Godinho é antropóloga, leccionando na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH). Tem desenvolvido pesquisa, entre outros temas, em torno de movimentos sociais e contextos de fronteira. Publicou, entre outras obras, Memórias da Resistência Rural no Sul – Couço (1958-1962).
3 de Novembro
A crise da representação
Com José Bragança de Miranda e Ricardo Noronha
De forma a dar conta da distância entre uma elite de representantes e o conjunto dos representados, é amiúde referido que vivemos em plena crise da representação. Assim, os debates em torno da abstenção ou dos votos em branco, ou a referência ao enfraquecimento dos poderes dos Estados nacionais no quadro da globalização, alimentam a ideia de uma crescente crise da representação. Paralelamente, a problemática da representação convoca um debate cujo alcance supera a actualidade político–institucional. No quadro da política, mas não só aqui, o ideal de representação parece pressupor a possibilidade de uma relação incorruptível entre quem representa e aquilo que é representado. De tal modo assim seria que, na relação estabelecida entre governante e governado, o sujeito primeiro re ectiria transparentemente o objecto representado [veja-se Bourdieu no dossier]. Contudo, se não estivermos seguros desta transparência, o debate da representação deverá começar por perguntar se a representação é sempre um lugar de crise e, por outro lado, questionar se é possível pensar em política e em democracia além da representação.
José Bragança de Miranda é professor de Ciências da Comunicação na FCSH e professor convidado na Universidade Lusófona. Entre outros, publicou Queda sem m, Teoria da Cultura e mais recentemente Corpo e Imagem.
Ricardo Noronha é historiador e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde realiza o seu doutoramento acerca da nacionalização da banca no pós-25 de Abril.
10 de Novembro
Polícia e política
Com Manuel Deniz Silva e Tiago Pires Marques
Em vários países do século XX, a memória da polícia política remete necessariamente para os tempos da ditadura e sabemos que a crítica desses tempos cria uma oposição radical entre a ideia de polícia e a ideia de política. E hoje ainda, quando se trata de debater a relação entre política e polícia, é de um exercício físico e violento do poder de Estado que estamos muitas vezes a falar. Entretanto, polizei, policy, política, polícia, são palavras que percorrem um mesmo universo histórico, num quadro de continuidade e de ruptura que envolve a administração interna, a ordem pública, o direito, a estatística. Neste contexto, e partindo das aproximações de Michel Foucault e Jacques Rancière [veja-se os textos de ambos no dossier], esta sessão procura situar o debate político à luz de um mais amplo entendimento da relação entre polícia e política.
Manuel Deniz Silva é investigador do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança, da FCSH. Realizou doutoramento em Paris sobre a História da Música em Portugal e trabalha actualmente sobre música e cinema.
Tiago Pires Marques é historiador e investigador na Universidade de Paris I. A sua investigação tem incidido sobre a História do direito penal, do sistema prisional e da criminologia. Publicou, entre outros, Crime e Castigo no Liberalismo em Portugal.
17 de Novembro
A biopolítica
Com António Guerreiro e Nuno Nabais
Nos últimos anos, a biopolítica de Michel Foucault tornou-se um sugestivo lugar de debate. O recurso ao conceito parece anunciar que a discussão da política terá que decorrer num plano que ultrapassa largamente o domínio do institucional, alastrando- se a todas as esferas da vida, no momento em que emergem novas técnicas de governo da população. Entretanto, e a partir da obra de autores como Giorgio Agamben, Roberto Esposito ou Antonio Negri, a noção de biopolítica tem sido objecto de interpretações diversas, por vezes até contraditórias, nuns casos apresentando o conceito como “grito de alerta” contra o actual estado das coisas, noutros interpretando-o como gesto de abertura de novos campos de poder político [veja-se Peter Pàl Pelbart no dossier].
António Guerreiro é crítico no jornal Expresso, tradutor e ensaísta. Tem trabalhado particularmente autores como Walter Benjamin e Giorgio Agamben.
Nuno Nabais é professor de loso a na Universidade de Lisboa e autor, entre outros, de A metafísica do trágico – estudos sobre Nietzsche. É ainda coordenador da Fábrica de Braço de Prata.
24 de Novembro
Da ciência política à filosofia
Com Bruno Peixe, Eduardo Pellejero e Lisete Rodrigues
Ao longo dos últimos anos, os cientistas políticos assumiram um lugar proeminente no comentário e na análise política. Assumindo frequentemente a gura do especialista e do perito, os seus comentários tendem a focar preferencialmente dinâmicas eleitorais e institucionais. Em Portugal, a Ciência Política tem conhecido assinalável desenvolvimento académico, demarcando-se da História, da Antropologia ou da Economia Política. Entretanto, nos últimos anos também assistimos a uma recuperação da loso a enquanto discurso que é condição da política – e vice- versa [veja-se Badiou no dossier] – e que em certos casos vem mesmo rejeitar a própria ideia de uma articulação entre ciência e política. Esta sessão procura debater o lugar do conhecimento e das ideias na vida política.
Bruno Peixe é investigador da NUMENA. Economista de formação, realiza mestrado em Filoso a e tem-se interessado particularmente pela obra de Alain Badiou.
Eduardo Pellejero realiza actualmente pós-doutoramento em Filoso a, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Técnica de Lisboa. Tem vários trabalhos publicados, nomeadamente acerca de Gilles Deleuze.
Lisete Rodrigues é doutoranda em filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde desenvolve uma tese sobre o pensamento político de Espinosa, Hannah Arendt e Alain Badiou.