Sofia Dinger
Folha de Sala
Pequena entrevista com Sofia Dinger
(por e-mail, fevereiro e novembro 2014)
MARK DEPUTTER: O teu percurso profissional ainda é curto, mas aparentemente decidiste, desde o início, que querias dividir o teu tempo entre projetos de outros encenadores e projetos próprios. Porquê?
SOFIA DINGER: Não posso, realmente, dizer que decidi. Também não posso, realmente, dizer que aconteceu. Foi mais uma estratégia de sobrevivência que me revelou vontades que eu nem sabia bem que tinha. No início, dediquei-me a projetos próprios, essencialmente, porque eram os únicos que dependiam exclusivamente da minha capacidade de os fazer acontecer. Foi uma forma de me sentir menos refém das circunstâncias, de conseguir trabalhar. E o mais bonito é que esta espécie de resistência à adversidade acabou por me ensinar um possível caminho, que me enche de tanto prazer e esperança. Continuo a querer participar em projetos de outros, muito até, mas sim… Acho que posso dizer que este modo de fintar as dificuldades me ofereceu uma escolha. Renovada, repensada muitas vezes. Mas que, por enquanto, me serve e me permite formular de um modo muito inteiro o que quer que seja este meu corpo na relação com este mundo.
MARK: No contexto da Noite do Manifesto, aqui no Teatro Maria Matos, apresentaste uma primeira abordagem ao pensamento de Jean Renoir. Lembro-me de uma cena em que Renoir trabalha com uma atriz (já não me lembro quem). É essa temática que te interessa nesta nova criação também? O ofício da representação?
SOFIA: Ainda não sei bem. O trabalho está a acontecer, mas ainda não o entendo totalmente. Quer dizer, o ofício da representação, do trabalho enquanto atriz está lá por baixo, sim. Está sempre. Perguntar, fazendo. Descobrir, tentando. Mas não acho que seja a camada mais importante para mim. Eu sou atriz, logo a temática do meu ofício está na raiz de tudo o que proponho, é em mim o local de onde parte o voo… Mas ao desenvolver esta relação virtual com o Jean Renoir, emergiram novos temas, encontros mais fulcrais e desvios mais acentuados. Dizer: o ofício de uma pessoa, anterior ao ofício de uma profissão. Dizer: como lidar com os fantasmas de que és feito. Dizer: “e se um dia tu morreres longe de mim, se fores atropelado e eu não souber, o que fazer aqui sozinha?”. No fundo, estou a permitir-me disparar em muitas direções, com a ressalva de que “é preciso de tudo para se fazer um mundo.” E foi o Jean que disse isto, não fui eu.
MARK: Quais são estes temas que estão a surgir no processo de trabalho e no encontro com o Jean Renoir? Imagino que, a cerca de um mês da estreia, muito ainda está em aberto, mas podes dizer algo sobre os caminhos que estás a explorar?
SOFIA: Hoje não é um bom dia para responder a esta pergunta. Acho que qualquer resposta que te dê hoje se irá situar algures naquele terreno obscuro entre a mentira e a fraude. E eu não quero isso. O trabalho já teve contornos mais fáceis de pronunciar. É como se hoje tivesse andado alguns passos atrás. Não me assusto. Acredito que trabalhar também tem a ver com isto…com saber perder o caminho.
MARK: O Jean Renoir é importante para ti neste processo por causa dos seus filmes ou por causa da sua visão sobre o cinema, a arte, o mundo?
SOFIA: Por todas essas coisas, sendo que elas se confundem. Quando comecei este trabalho, não conhecia muito bem a filmografia do Jean Renoir, é certo. Digamos que a chegada dele à minha vida aconteceu sem grande aviso, quase por erro. E no início, foram as suas visões sobre o mundo que me chamaram. Mas essas mesmas visões estão entranhadas nos seus filmes e a voracidade, o quase vício que desenvolvi pela sua obra, é reflexo disso mesmo. Fico grata a este processo porque me permitiu “conhecer” um homem. Um homem extraordinário, um colaborador à força. O Jean Renoir é importante para mim, porque lhe roubo as palavras, porque tento pôr-me a falar através dele, a descobrir o que quero dizer, porque gosto da forma como ele mexe as mãos e olha nos olhos. Encanta-me a carne, o humor, a profunda humanidade, a travessia que nunca se deu por satisfeita. Gosto do modo como ele se conta, contando as histórias dos outros, gosto de pensar que ele teria gostado de mim se me tivesse conhecido. Gosto de forçar este encontro, que tem tão pouco de natural. O Jean Renoir não seria, apesar de tudo, uma escolha óbvia para mim e isso gera uma dificuldade qualquer que não deixa o trabalho morrer. “Tu és o outro…e nada mais.” É que o Jean disse tudo.
MARK: A estreia foi adiada por cerca de seis meses. Em março o trabalho não estava pronto para apresentar, agora está. Qual era o problema e como e onde encontraste uma “saída” para o espetáculo?
SOFIA: Sei que, de alguma forma, os trabalhos nunca estão prontos, não é? Ou não fosse essa a natureza deste ofício. Mas em março, EU não estava pronta. Esse era um dos problemas. Outro dos problemas foi a ingenuidade, achava-me capaz de ser mais ágil do que realmente sou. Atirei-me a uma odisseia maior do que tinha previsto e o trabalho, com todo o seu humor intrínseco, devolveu-me a minha situação. “Tens de esperar que as coisas se construam.”, diz o Renoir. Pôr-me a falar através dele não é a tarefa mais simples, muito embora seja arrebatadora (para mim). Perceber exatamente onde me doía para ir lá buscar esta peça não foi assim tão transparente. “Sabemos que está lá tudo aquilo que mais tarde iremos ver, mas que só com o tempo vem ao de cima.” Eu precisei desse tempo. O problema era ter em mãos um puzzle que me ultrapassava, porque as minhas mãos estavam desatarraxadas do corpo e sem mãos não há como construir um puzzle. Encontrei a “saída” para o espetáculo quando desisti de tentar controlá-lo, percebi que tinha que me pôr ainda mais dentro dele, refazer-me a partir dele, encontrar na sua feitura as tais mãos que andavam perdidas. Não houve um momento exato, antes esta bênção do tempo. Não houve um “como” exato, antes esta inevitabilidade, este desejo de se ir continuando. Roubei ao Renoir a sua alegria de viver e foi com ela que fiz o resto do caminho. Acho que o trabalho está, agora, mais pronto. Mas tenho a certeza que EU estou. E como também dizia o Renoir: “Tens que ser tu e não outra pessoa qualquer.”
Menores de 30 anos 5€
